Técnica: Se houvesse evidências, eu acreditaria

Nesse estratagema, o neo-ateu nos lembra daquilo que nunca deveríamos ter esquecido: que ele “o” cético, que ele só olha as evidências e que ele é uma pessoa extremamente racional, um modelo a ser seguido. Logo, como não existem evidências para Deus, ele não acredita. E “se houvesse evidências, eu acreditaria”. Importante lembrar: a idéia “se houvesse evidências” já deixa implicita a técnica Não há evidências, que também deve ser refutada. Vamos identificar o erro dessa fala.

Em um caso prático, o diálogo pode ocorrer mais ou menos assim:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: É o que vamos ver…

A falha gritante desse truque é que ele se baseia apenas em EVIDÊNCIA ANEDOTA e, por consequência, essa frase deve ser DESCARTADA. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria” não é testável. Nesse sentido, ela não é muito diferente de dizer que há um “Dragão na Garagem”. Não há como saber, a princípio, se ele realmente iria acreditar e se outros fatores iriam influenciar e “suprimir” as evidências.

Pense um pouco: como saber se o neo-ateu realmente iria acreditar ao ver as evidências? Será que ao ver as evidências fatores sociais e emocionais não iriam contar para a tomada de decisão?

Imagine alguém que estude em um ambiente altamente secularizado e anti-religioso, o levando ao ateísmo. Todos os dias as pessoas desse departamento contam piada de religiosos, tiram sarro da crença em Deus, dizem que ela é “irracional” e etc. Um dia, ele vê as evidências. Essa experiência anterior cotidiana de sátira e escárnio influenciaria no grau de ceticismo usado pelo julgador talvez o levando a uma exarcebação que ele não aplicaria em outras àreas da vida? Será que não? O psicólogo Paul Vitz levantou a hipótese de que um relacionamento ruim com o pai e a satisfação de não ter que “prestar contas” moralmente para ninguém ajudam a sustentar a preferência pelo ateísmo. Será que isso é impossível? Estar acostumado a um estilo de vida, com pressão emocional de ter que se ajustar a alguma conduta se acreditar, além das pressões do ambiente não impediria uma análise imparcial das evidências? Existindo a possibilidade de outros fatores, além das evidências, influenciarem na decisão final, o self-selling vai para a lata de lixo.

Se eu fosse cretino, eu poderia dizer que “não é possível convencer um descrente de coisa alguma; pois suas descrenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de descrer”. Mas como eu não sou, e reconheço que não tenho nenhuma bola de cristal para saber o que todos pensam, não falarei que essa frase é válida.

Se você quiser ser ingênuo e achar que o mundo é composto por “Pollyannas”, que são sempre honestas e vão avaliar só por evidências, sendo impossível levar em conta aspectos variados… pode acreditar. Mas, em um debate, eu não sou obrigado a acreditar.

Notem que eu não estou dizendo que não existam pessoas que olhem as evidências e decidam só por elas. Decerto existem muitas pessoas que realmente conseguiriam agir assim. A questão é que não é possível saber se o alegador realmente é honesto, se está enganando você ou até se está enganando a si próprio. Não preciso aceitar a declaração PESSOAL de alguém se eu não sei ela é válida ou não.

Talvez algum ateu responda “Você tem que confiar na declaração de um outro ser humano! Acreditar com evidências é instintivo!”.

Mas eu já aviso de antemão que eu NÃO tenho “crença no homem”. As pessoas podem sim ser desonestas, mentir e manipular (principalmente quem acredita que “não há verdade objetiva”, não é mesmo?). Minha postura em debates e política é baseada nisso. Podem analisar meu comportamento e avaliar.

Outro erro comum é pensar que “se realmente existissem provas, todos concordariam; como há discordância, é sinal de que não existem evidências”. Ué, desde quando a verdade virou um mero “consenso democrático”? Se for assim, a Evolução também entra nesse balaio, pois muitos discordam que ela tenha efetivamente ocorrido. “E se há discordância, então não há evidências”. Dá para ver que esse raciocínio não pode ser considerado correto.

Em resumo:

  1. A alegação “se houvesse evidências, eu acreditaria”, baseia-se em evidência anedota e não é verificável, a princípio;
  2. Se existir alguma possibilidade de fatores emocionais ou sociais refletirem no ateísmo da pessoa, então não devemos acreditar na sua declaração original;
  3. Mesmo sendo verdadeira, a posição pessoal não importa nada em um debate; dizer “eu faria aquilo, eu faria isso” não é um argumento e não tem que ser discutido, a não ser para desmascarar quem diz isso;

Portanto, a refutação pode seguir essa linha:

  • NEO-ATEU: A nossa diferença é a seguinte. Se houvessem provas, eu acreditaria. Mas não há evidências, por isso sou ateu.
  • REFUTADOR: Não há como saber se você acreditaria ou não. Essa é uma evidência anedota e você pode estar mentindo. Pode ser que, por motivos emocionais ou sociais, você simplesmente não aceitaria, mesmo com as evidências. Além disso, quando você fala “não há evidências”, qual o tipo de evidência esperada?
  • NEO-ATEU: Como você ousa duvidar de mim? Eu estou sendo absolutamente sincero! Eu gostaria muito que Deus existisse, só não existem provas, e por isso quem acredita é irracional! Que tipo de evidência? Ahn, qualquer coisa CONCRETA, se for ilógico eu advirto…
  • REFUTADOR: Você cometeu um erro de especificação de evidência, usando palavras vagas como “qualquer coisa” e “concreta”. Para declarar que não existem evidências, você tem que saber EXATAMENTE o tipo de evidência que seria produzida no caso de existência. Sobre a primeira parte, você, novamente, pode estar mentindo, seja para mim ou seja para si mesmo. Além disso, essa sentença é só uma forma de propaganda em declaração pessoal. Portanto, ela não importa absolutamente NADA para o debate. Devemos focar nos argumentos, entendeu?

[e assim por diante, até neutralizar a propaganda]

Conclusão

Essa técnica não passa de um apelo emocional e apelo de autoridade, tentando colocar o divulgador da tese com uma aparência de “Eu tenho dúvidas, eles não; eu olho as evidências, vocês não; eu sou bonzão, vocês não.” Dizer “se houvesse evidências, eu acreditaria”, no fim das contas, não é nada mais que uma forma de self-selling, evidência anedota e fraude intelectual. Simples assim.

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