Técnica: Neurociência explica a crença em Deus

Nessa técnica, o neo-ateu tentará cantar vitória sobre o teísta justificando-se através do fato de que a neurociência supostamente teria identificado o processo que leva os seres humanos a ter crença em Deus. Ele pode dizer algo do tipo: “Recentes pesquisas da neurociência já mostraram porque os seres humanos acreditam em Deus. Eu sei os motivos pelos quais você acredita e é por isso que seu Deus não existe fora de sua imaginação”.

Se a trucagem não ficou clara ainda, basta conferir que essa não passa de uma técnica baixa de intimidação. Mais uma vez, a confusão reside entre as noções de “Adquirir P” e “Verdade de P”. Utilizando um exemplo bovino, imagine que pesquisadores implementem no cérebro de uma vaca eletrodos, os quais podem ser acionados pelos cientistas conforme a necessidade da pesquisa. Assim, eles acionam os eletrodos num determinado tempo (T) sobre uma determinada área do cérebro que fazem a vaca acreditar (se é que uma vaca tem algo como crenças) que “um dia(T2), um humano vai tirar leite de mim”.

Assim, teríamos uma explicação neuro-científica para a crença P da vaca, porque tal área do cérebro desse animal é estimulada, ele passa a ter uma determinada crença sobre a realidade. Mas isso significa que sua crença P é FALSA? Nem de longe! Pode ser muito bem que Fulano, amanhã, no tempo T2, realmente venha a tirar leite da nossa amiga bovina. Portanto, a crença era verdadeira. E o mesmo vale para qualquer outro tipo de crença. A neurociência pode até explicar o processo cognitivo pelo qual se forma uma crença, mas jamais algo dirá sobre a VERACIDADE ou não da crença em questão baseando-se APENAS nesse processo. Sim, esse ponto é tão direto quanto parece. E como podemos catalogar uma evidência para inexistência de Deus que seja baseada na existência de uma explicação neuro-científica para a crença que Deus existe? Simples: Como fraude intelectual. Mas será que a neurociência também não pode vir e dar uma explicação da descrença em Deus (como o o desejo de cometer certos tipos de atos sexuais em conflito com a imagem que o sujeito tem de Deus ou seja lá o que for)? Então, nesse caso, Deus existiria e não existiria ao mesmo, já que temos explicação neuro-científica para os dois casos? Bobagem, é claro que não. Sem falar que teístas não precisam se sentir nada amedrontados por alguma descoberta de que o cérebro humano está naturalmente preparado para crer em Deus. Não é exatamente o que iríamos esperar no caso de Deus existir? Um conhecimento intuitivo e natural nos humanos da existência de uma força superior?

Até antigos filósofos cristãos já tinham dado seu palpite no tema. São Tomás de Aquino dizia que “O conhecimento da existência de Deus é implantado, embora de uma forma geral e confusa, em nós pela natureza…”. Calvino também trabalhou com a noção de umsensus divinitatis, que providenciava a crença em Deus pela mero interagir com o mundo exterior. Se Deus existe, ele não ia querer que até o mais simples e humilde dos humanos tivesse crença nele, não por argumentos complicados que talvez ele jamais entenda, mas por um processo natural que o leva para a crença? Parece uma noção bastante coerente com o teísmo, revertendo a ideia inicial ao nosso favor. Outro ponto que essa idéia derruba é a nossa velha falácia de que “Todos nascem ateus”(esta bobagem, por incrível que pareça, é amplamente divulgada hoje em dia pela associação de ateus e agnósticos do Brasil, ou se preferir, ATEA). Se o ser humano nasce pronto para acreditar em Deus, então todos nascem TEÍSTAS. Então, nesse caso, é o ATEÍSMO que vira resultado de influências culturais sobre a pessoa e não o contrário.

Conclusões e considerações finais:

Enfim, se alguém tentar refutar a existência de Deus utilizando a neurociência, é só lembrar que identificar o processo de formação de algo é diferente de dizer se esse algo é ou não verdade. Aí é só mandar pastar! Até porque qualquer argumento que se baseie nessa noção, por si só, já é uma clara forma de picaretagem.

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