Seria o argumento cosmológico uma versão do Deus das Lacunas?

Aceitamos que eventos naturais, normalmente, tem sua origem em outros eventos naturais. Assim, quando chove, podemos assumir que, normalmente, a chuva teve sua origem causada por uma série de combinações meteorológicas e não porque não sabemos bem, então é Deus que está agindo, pois implica uma quebra na cadeia previamente aceita (natural -> natural -> natural; natural ->sobrenatural -> natural).
Mas o primeiro dos eventos naturais não poderia ter tido origem em outros eventos naturais, porque simplesmente a própria condição de natureza não existia. Dessa forma, um raciocínio que infere uma condição sobrenatural (i.e. uma condição imaterial e atemporal, pois toda natureza conhecida é contigente ao material e ao temporal) para o surgimento do primeiro evento natural não cai no argumento do Deus das Lacunas, se bem justificar suas premissas. Admitamos, apenas como hipótese (*):

1. Toda transformação (ou mudança de estado) tem uma causa.
2. O início da matéria foi uma transformação ou mudança de estado da inexistência do material e temporal para a existência do material e temporal.
3. Portanto, o início do material e do temporal tem uma causa.
4. A matéria e o tempo, se não existiam, não são características das causa que deu origem à matéria e ao tempo.
5. Portanto, as características da causa são ser imaterial e atemporal.
Há um Deus das lacunas aí? Claro que não. Primeiro, que o argumento não menciona Deus e sim uma causa que se encaixa no padrão proposto para ele. Segundo, que não é um apelo à ignorância como o é um argumento dos Deus das Lacunas, como:
1. Este evento não é explicado pelo conhecimento humano.
2. Mas uma divindade poderia fazê-lo.
3. Portanto, uma divindade o fez.
Na versão que eu apresentei do argumento, mostrei que é logicamente coerente aceitar que é possível pensar em uma causa que não está contigente à matéria e ao tempo se estivermos falando do primeiro evento natural, onde não há nenhuma quebra de cadeia. Não houve nenhum salto para Então é Deus ou um apelo à ignorância, não podendo, de maneira alguma, dizermos que foi um argumento de Deus das Lacunas.

Na verdade, essa é só uma forçação de barra para tirar uma hipótese que se encaixa no padrão de Deus (i.e. imaterial, atemporal, etc.) da jogada. É a famosa falácia do Morro Deslizante ou a Ampliação Indevida mencionada por Schopenhauer, pois tenta expandir dos usos errados do argumentos compatíveis com a descrição objetiva de Deus para uma que é logicamente coerente.

Um outro erro a ser usado como pretensa refutação é a falácia do wishful thinking. Só porque hoje não sabemos o que causou a matéria, não quer dizer que amanhã não saberemos ou Havia várias coisas que a Ciência não explicava ontem, então temos que esperar ela explicar amanhã ou ainda Divindades politeístas eram a explicação de vários eventos ontem que a Ciência explica naturalmente hoje.

O argumento falha porque a Ciência não pode testar o que existia antes do material e o argumento, novamente, não fala em divindades específicas e não está explicando algo dentro da cadeia dos eventos naturais e sim assumindo que, se uma causa existia de toda e qualquer forma de matéria, essa causa não poderia ser material. Há algum erro lógico nisso?

Até é possível admitirmos que, talvez, o argumento cosmológico esteja errado, como concessão para a explicação que estamos dando. Para isso, poderia-se apresentar evidências de que a matéria e o tempo não tiveram um início ou que nem toda mudança de estado tem uma causa.

Mas daí dizer que o raciocínio foi construído a partir de Não sabemos explicar bem, então foi Deus?

Quem fizer isso, dá um atestado de falta de honestidade intelecutal [E não se surpreenda se encontrar isso por aí].

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