Quatro pontos que diferenciam um neo-ateu de um ateu tradicional

Muitas vezes as pessoas me perguntam como saber quem é um neo-ateu. Eles existem, mas, de fato, pode ser um pouco difícil de identificá-los. Por isso, uma pequena investigação para descobrir critérios para diferenciar se o o adversário é um neo-ateu ou não pode ser útil aqui.

Primeiro, de onde vem o termo neo-ateu? Claro que não fui que o inventei. Ele está bem definido como representante de quatro autores – Richard Dawkins, Sam Harris, Daniel Dennet e Cristopher Hitchens – e seus seguidores diretos ou indiretos. É um movimento intelectual bem delimitado e popular (com vários livros no top dos best-sellers do New York Times, Amazon, etc.) Toda a documentação sobre a existência do neo-ateísmo já foi tratada no post “Neo-ateísmo é um termo inventado por teístas” [Link quebrado].

Basicamente, o neo-ateísmo é o ateismo com um “plus” dado pela mentalidade revolucionária. Para questões didáticas, quatro pontos podem ser propostos para fazer a efetiva diferença entre o que é um neo-ateu e o que é um ateu tradicional baseado no que dizem os autores neo-ateus:

1. Discurso de baixa qualidade filosófica:

O neo-ateu (que é um movimento direcionado para o “populacho”) normalmente trabalha com SLOGANS, diferente de argumentos filosóficos. Neo-ateus sabem pouco, ou muito pouco, de filosofia, epistemologia e teologia.

Isso já fica bem claro, por exemplo, no prefácio à edição de bolso de Deus, um Delírio. Dawkins recebeu várias críticas por sua pobreza filosófica na questão Deus. Para se esquivar, deu uma resposta infame, dizendo que “Se eu eu não preciso conhecer o Monstro do Espaguete Voador para criticar (fraude analisada aqui), Deus também”. Veja aí:

Ampliando o argumento, a maioria de nós desqualifica sem problemas as fadas, a astrologia e o Monstro de Espaguete Voador,* sem precisar afundar em livros de teologia pastafariana, e assim por diante. (Deus, um Delírio, pág. 10)

Ou seja, Dawkins confessa PUBLICAMENTE que critica a religião… sem entender teologia, que poderia fornecer as respostas para a crítica. Para complementar, basta lembrar que William Lane Craig comentou que Hitchens disse que estava “surpreso” com a existência de justificações para o teísmo e que “eu achava que era tudo pela fé!” (October 27, 2009,Christopher Hitchens Debate, Reasonable Faith Podcast Archive). Está na cara que eles não entendem muito do assunto. Eles são escritores de PROPAGANDA, não de filosofia.

Entre alguns dos problemas do discurso filosófico neo-ateu, poderiamos citar:

  • cientismo (a ciência responde todas as questões, inclusive para a moralidade);
  • venda extrapolada da Teoria da Evolução (“Darwin nos livrou de Deus”);
  • negação da existência de padrões objetivos de moralidade, ao mesmo que tempo que julgam atos religiosos como absolutamente imorais (“a moral é uma construção cultural, mas ensinar religião para as crianças é um absurdo que é errado em qualquer situação);
  • self-selling para ateísmo (Ateus são fortes, Teístas são fracos);

E todo tipo de truque analisado por mim na seção Truques Neo-Ateístas.

2. Ateísmo militante (em oposição ao ateísmo agnóstico ou ateísmo moderado)

Outra diferença do neo-ateu é que ele quer CONVERTER mais pessoas para o ateísmo (ou, pelo menos, destruir as convições religiosas das pessoas). Não basta achar que Deus não existe; é necessário fazer as pessoas entendam que Deus não existe. Richard Dawkins, por exemplo, deixa claro isso no seu livro:

Sua intenção é conscientizar — conscientizar para o fato de que ser ateu é uma aspiração realista, e uma aspiração corajosa e esplêndida. (…) Se este livro funcionar do modo como pretendo, os leitores religiosos que o abrirem serão ateus quando o terminarem. (Deus, um Delírio, pág. 18 e 23)

Richard Dawkins também deixa bem claro que seus leitores tem um papel a cumprir, ao citar que é errado dizer que crianças tem posições religiosas e que os seus leitores precisam rebater qualquer pessoa que fale sobre “crianças muçulmanas”, por exemplo, devendo “usar todas as oportunidades para marcar essa posição.” (pág. 13, Deus um Delírio). O movimento deve ser usado para “conscientizar”.

O neo-ateísmo é um ateísmo militante.

Qual a motivação para a militância? Isso nos leva para o item (3) do neo-ateísmo.

3. Crença sem evidências que a eliminação da religião irá diminuir o gregarismo na espécie humana/ajudar a implementação de um “novo homem”:

Por trás da motivação da militância, está a idéia de transformação da sociedade pela eliminação da religião, seja na esfera pública, seja na esfere privada (com um “novo homem” emancipado, típico dos discursos humanistas). Cristopher Hitchens deixa claro que a religião não só é ruim, como é uma AMEAÇA para espécie humana em seu livro Deus não é Grande:

Visto que a religião tem provado que ela é unicamente deliquente… nós podemos concluir que… a religião não é apenas amoral, mas também imoral. A religião envenena tudo.Além de ser uma ameaça para a civilização, ela é uma ameaça para a sobrevivência da própria espécie humana. (pág. 10 e 20, God Is Not Great: How Religion Poisons Evertything, traduzido por mim do inglês)

Richard Dawkins acredita que na esfera individual, as pessoas viverão uma “vida livre de verdade” ao adotarem o ateísmo:

Prefiro dizer que acredito nas pessoas, e as pessoas, quando incentivadas a pensar por si sós sobre toda a informação disponível hoje em dia, com muita freqüência acabam não acreditando em Deus, e vivem uma vida realizada — uma vidalivre de verdade. (Deus, um Delírio, pág. 10)

Dawkins complementa, em seguida, ao dizer que ateísmo é correlacionado ao “mente saudável”

Minha quarta conscientização diz respeito ao orgulho ateu. Pelo contrário, é uma coisa da qual se deve ter orgulho, encarando o horizonte de cabeça erguida, já que o ateísmo quase sempre indica uma independência de pensamento saudável e, mesmo, uma mente saudável. (Deus, um Delírio, pág. 21)

Aliás, se havia alguma dúvida se Dawkins tinha “crença no novo homem”, não há mais. O neo-ateísmo é apenas uma variação do humanismo e da mentalidade revolucionária, que defende a transformação da sociedade para uma era “cheia de paz” ou o “outro mundo possível”. Para chegar a uma coisa tão boa, não valeria qualquer tipo de atitude? É o que nos leva ao item (4).

4. Uso de estratégias de escárnio e ridicularização:

No movimento neo-ateu, tratar religiosos e a religião como lixo não uma coincidência: é um princípio. Vamos lembrar, aqui, de uma entrevista dada por Sam Harris ao site Truthdig:

Então, ridicularizão pública é um princípio. Uma vez que você deixa de lado o tabu que é criticar a fé e exige que as pessoas comecem a falar com sentido, então a capacidade de fazer as certezas religiosas parecerem estúpidas, fará nós começarmos a rir na cara das pessoas que acreditam aquilo que Tom DeLays, que Pat Robersons do mundo acreditam. Nós vamos rir deles de uma maneira que será sinônimo de excluí-los do nossos salões do poder. [¹]

A mensagem de Sam Harris é explícita. Pessoas que possuam crença religiosa devem ser EXCLUÍDAS da discussão pública. E isso está exatamente de acordo com sua atitude, alguns anos depois, de atacar a nomeação de Francis Collins ao NIH por ele acreditar em Deus. [²]

Cristopher Hitchens também mandou uma mensagem semelhante – a religião não deve ser respeitada, deve ser destruída:

“E eu afirmo que [a religião] deveria ser tratada como rídicula, e com ódio e desprezo – e afirmo que isso é um direito”. [³]

O que Hitchens defende não é muito diferente daquilo que Datena defendeu no seu programa no caso célebre dos últimos meses. Portanto, assim como tive rejeição à atitude de Datena, rejeito a de Hitchens.

Por fim, acho que tenho uma boa base para afimar essa diferenciação. Dá para ver qual é a postura dos autores neo-ateus. Como eles foram um sucesso de vendas e de marketing, essa postura ganhou adeptos. Duvida? Vá em comunidades de debates e confira se essas figuras não aparecem.

E é por isso que eu digo: não há mais oportunidade de diálogo. Eles devem ser investigados e desmascarados. Fim de papo. Qualquer coisa além disso é perda de tempo. Não deixe pessoas lhe ridicularizarem e as trate como “tendo as melhores das intenções”.

Se você fizer isso, já perdeu qualquer confronto intelectual de antemão. A resposta tem que ser firme. Quem trata com polidez imerecida aqueles que lhe atacam virulosamente como “irracional”, “idiota”, “estúpido”, deve ser considerado cúmplice na difamação aos religiosos.

Fontes:

  1. Sam Harris, Truthdig interview, April 3, 2006, v.http://www.truthdig.com/report/page5/20060403_sam_harris_interview/?/interview/page5/20060403_sam_harris_interview/
  2. Sam Harris, Science Is in the details, July 26, 2009 v.http://www.nytimes.com/2009/07/27/opinion/27harris.html?pagewanted=2&_r=2&ref=opinion; Para uma análise mais completa do caso, v. Luciano Ayan, “O Mito da Racionalidade Neo-Ateísta” http://lucianoayan.wordpress.com/2010/01/14/o-mito-da-racionalidade-neo-ateista/
  3. ~Christopher Hitchens, on Freedom of Speech, v.http://blogs.alternet.org/speakeasy/2010/07/07/what-christopher-hitchens-and-the-new-atheists-can-learn-from-malcolm-x/

[OBS.: Em boa parte dos casos, o único ponto explícito será o nº (4). Nesse caso, mesmo que o autor diga que não é neo-ateu, ele estará AGINDO como um. Portanto, a crítica pode ser feita no sentido “você está agindo como neo-ateu”. A filiação à comunidades ou defesa de Dawkins e cia. também serve como indicativo de que temos um neo-ateu no debate.]

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