Papai Noel, Fada do Dente e Deus – Parte 01

Caro Dr. Craig,

Eu realmente adotei o debate entre você e Christopher Hitchens e fiquei impressionado com sua organização. Uma coisa, entanto, que eu achei injusta foi que você pediu para Hitchens providenciar evidências para o ateísmo ou evidência de ausência. Eu pensei bastante sobre que tipo de evidência de ausência possivelmente poderia ser produzida, não apenas para Deus mas para Papai Noel ou para fadas do dente. Eu não estou dizendo que ele pode ignorar as evidências para Deus, mas eu acredito que seu único trabalho era derrubar seus argumentos.

Resumidamente, você pode me dar exemplos do tipo de evidência de ausência convincente para Deus ou para outros seres?

Obrigado!

Steven

  • Resposta:

Um dos nossos voluntários do  Reasonable Faith [Fé Racional – Brasil] esteve trabalhando nesse assunto ultimamente, Steven, então eu vou deixar ele abordar sua questão. A resposta vai a seguir:

Boa pergunta! O debate Craig-Hitchens foi bastante interessante por várias razões, mas, ao mesmo tempo, também foi frustrante. “Frustrante” porque Hitchens não foi claro sobre qual posição ele estava defendendo: não-teísmo ou ateísmo (veja abaixo). Mas, durante o período de diálogo direto, percebeu-se que Hitchens estava tentando defender o ateísmo. Assim, então o Dr. Craig estava inteiramente correto em pedir para Hitchens um argumento para o ateísmo.

Sua questão está relacionada a uma maior, ou seja, se a ausência de evidência para alguma coisa é evidência de sua ausência. Eu primeiro vou abordar essa questão e depois, pelo fim, irei dar alguns exemplos que você procura. Eu dividi minha resposta em seções para facilitar as referências. Quando você terminar de ler isso, você também pode querer ler o arquivo para conferir a Questão #6.

1. Introdução

O famoso filósofo britânico Bertrand Russel quando perguntado o que iria responder se ele se encontrasse com Deus no juízo final e Deus falasse, “Por que você não acreditou em Mim?”. Russel respondeu de cara: “Sem evidências suficientes, Deus! Sem evidências suficientes!”

Muitos concluíram que o que eles consideram uma aparente falta de evidência para Deus como evidência de que Deus não existe; isso é, eles olham, não veem evidência “suficiente” e concluem que ateísmo é verdadeiro.

Mas Russel percebeu que a inferência da aparente falta de evidência para Deus para oateísmo é falaciosa. É por isso que em seu famoso debate em 1948 com Frederick Copleston ele preferiu o rótulo de “agnóstico” ao invés de “ateu”. Ainda hoje, muitos se chamam de “ateus” quando na verdade são agnósticos.

Vamos primeiro definir os termos da questão se “Deus existe”:

Observe algumas coisas sobre essas definições.

Primeiro, não-teísmo e agnosticismo não são mutuamente excludentes porque você pode ser um não-teísta e então falhar em sua crença em Deus (i.e., você pode não acreditar em Deus) mas também ser um agnóstico dizendo “Por tudo que sei, Deus existe. Mas eu simplesmente não sei.” Note também o quão extremo o agnosticismo forte é, já que ele afirma até mais do que os ateus fazem; o agnóstico forte diz que todos estão errados, ateus e teístas, e que eles não podem saber o que eles afirmam, mesmo que eles aparentemente alguns bons argumentos! Dá para pensar um pouco, então,  porque o agnosticismo forte é muitas vezes chamado de “agnosticismo avestruz”!

Há argumentos sólidos para a existência de Deus. Alguns deles são muito, muito bons. Mas suponha que não seja o caso; suponha que todos os argumentos para a existência de Deus falhem e que não existam mais nenhuma boa razão para acreditar em Deus. O que segue? —Ateísmo? É muito importar se dar conta que a resposta para essa pergunta é NÃO. O que segue, no máximo, é agnosticismo moderado.

2. Quando Ausência de Evidência = Evidência de Ausência?(Ou, quando a inferência de “Não vejo nada” para “Não há nada” é válida?)

O que eu tenho dito até agora levanta a questão, “Quando a ausência de evidênciavira evidência de ausência”? Essa é uma boa questão porque algumas vezes (mas nem sempre) a primeira implica na segunda. Vamos começar com alguns exemplos para trabalhar com isso.

Exemplo 1Elefantes na sala (Ausência de Evidência = Evidência de Ausência)
Alguém pergunta, “Há elefantes na sala?” Depois de olhar em volta e não ver nada, eu digo, “Não, eu não vejo nenhum. Não há elefantes na sala”.

A inferência de “Não vejo nenhum” para “Não há nenhum” nesse exemplo é justificada. Em respeito a elefantes nessa sala, eu não sou agnóstico; ao invés disso, eu afirmo positivamente: “Não há elefantes nessa sala”. Nesse caso, a ausência de elefantes na sala é evidência de sua ausência. Mas essa inferência não serve para o Exemplo 2.

Exemplo 2A Mosca do Grand Canyon (Ausência de Evidência ? Evidência de Ausência)

Nós estamos parados em cima do Grand Canyon e alguém pergunta: “Há uma mosca lá embaixo?” Depois de uma rápida olhada, eu digo: “Não, eu não vejo nenhuma. Não há moscas lá embaixo”.

Como no último exemplo nós vamos de “Não vejo nenhum” para “Não há nenhum” – mas diferente do último exemplo, a conclusão é injustificada. O agnosticismo sobre a mosca é a resposta apropriada aqui. Então no Exemplo do Elefante nós não precisamos ser agnósticos, mas no caso da Mosca do Grand Canyon nós precisamos. Por quê? Observe que não é o tamanho relativo dos objetos que cria a diferença (O guia do zoológico poderia perguntar para você no tour: “Você acha que há um elefante na cela da próxima seção?” sendo que a resposta deveria ser agnosticismo: “Eu não tenho idéia. Mas é possível.”)

A diferente saliente entre esses dois exemplos tem relação com nossa situação epistêmica — o que é, simplificadamente, a extensão e os limites da nossa habilidade em conhecer alguma coisa pelas nossas fontes primárias de conhecimento (i.e., percepção, memória, introspecção, testemunho, etc.) — e o fato de apenas em uma situação (Elefantes na sala) nós temos expectativa de conhecer aquilo que está faltando. Minha situação epistêmica em relação a conhecer se há um elefante na sala é bastante boa, enquanto minha situação epistêmica em relação sobre se há uma mosca no fundo do Grand Canyon é bastante ruim. Por quê? Quando nós temos uma situação epistemicamente boa para dizer “Não há nenhum X”? Que condições  devem ser preenchidas? Pelo menos duas. Na ausência de evidência de um objeto O você pode negar que O existe apenas se esses critérios forem preenchidos:

Critério da Expectativa de Evidência. Se o objeto O existisse, então nós esperaríamos que existissem evidências para ele.

Critério de Expectativa de Conhecimento. Se existissem evidências para o objeto O, então nós esperaríamos ter conhecimento dessa evidência.

Resumidamente, na ausência de evidência, nós podemos negar a existência de algo O somente se nós esperássemos possuir evidências suficientes para saber se O existe mas, de fato, há ausência disso.

(Dois comentários técnicos. Primeiro, quando eu digo “evidência” eu digo justamente qualquer tipo de consideração epistêmica positiva em favor do objeto O. Então, ao ter considerações não-proposicionais para algo pode contar muito bem como “consideração epistêmica positiva”. Esse ponto passa a ser importante na luz da Epistemologia Reformada e pelo fato que a crença em Deus pode ser “apropriadamente básica”, o que podem ser catalogada como “considerações epistêmicas positivas” (veja as questões no arquivo de número #68 & #30) Esse tipo de consideração epistêmica positiva também incluem a noção de algo sendo logicamente incoerente.  Se a idéia de alguma coisa é logicamente incoerente – como um “solteiro casado” ou um “círculo quadrado” – então nós realmente não precisamos de um exemplo envolvendo ausência de evidência, pois temos a máximas considerações epistêmicas positivas para sua não-existência. (Esse ponto também refuta a objeção de que “Deus existe” não é falseável. Eu vou ignorar isso para nossos propósitos, desde que nenhum ateu foi capaz de mostrar que a idéia de Deus é logicamente incoerente). E, segundo lugar, essas são condições necessáriaspara estar em uma boa situação epistêmica para negar a existência de alguma coisa; mas não são condições suficientes. Em outras palavras, apenas porque –mesmo que- alguém preencha os dois critérios, isso de maneira alguma a obriga a negar a existência de O.)

Para provar sua posição o ateu tem sua tarefa delimitada: o que ele deve demonstrar é que (a) a situação epistêmica em que nós nos encontramos em respeito a crença na existência de Deus satisfaz ambos os critérios citados acima; e (b) demonstrar que nós temos ausência de evidência suficiente para saber se Deus existe. De forma equivalente, ele deve mostrar que todos os argumentos para a existência de Deus não são sólidos e depois argumentar se Deus existisse então nós estaríamos em uma posição que nós esperaríamos saber se Deus existe. Mas, como nós vamos, há boas razões para pensar que (a) é falso porque nossa situação epistêmica na qual nós achamos em respeito a ambos os critérios não satisfaz os critérios acima.

(…)

[Por ser um texto muito grande (umas cinco vezes maiores do que eu transcrevo aqui, normalmente) pensei que seria melhor ‘não exagerar’ e dividir o texto em mais de uma parte que mantivesse o tamanho normal dos posts. Assim, a tradução continua nos próximos dias].

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