O Argumento da Incredulidade Pessoal

Richard Dawkins já reclamou certa vez que certas pessoas não conseguem apresentar argumentos contra a Evolução; elas simplesmente acham difícil de acreditar que a Evolução ocorreu e, portanto, a negam. Esse seria um exemplar do Argumento da Incredulidade Pessoal (“Eu não consigo acreditar que p; logo, não-p”). O Argumento da Incredulidade Pessoal é um tipo de Argumento da Ignorância, uma falácia informal de relevância.

Nesse ponto, ele está certo. Realmente é um raciocínio falacioso. Mas não podemos esquecer que o mundo bate lá e bate cá; neo-ateus TAMBÉM usavam essa técnica na época em que eu debatia na Contradições do Ateísmo.

E como era o procedimento utilizado por eles?

Simples.

Eles simplesmente dizem que Deus ou alguma doutrina do Cristianismo são fantásticas, incríveis, ridículas e dignas de escárnio e que, portanto, devem ser negadas. Em seguida eles comparam Deus com o Monstro do Espaguete Voador, o Unicórnio Rosa ou algo como a Mamãe Ganso e cantam vitória. Mas o fato de eles alegaram não conseguir acreditar em algo não é o suficiente para negar esse algo de forma alguma.

A nota é que volta e meia também era utilizado um espantalho para tratar das doutrinas cristãs (do tipo “Você tem que acreditar em cobra falante; como acreditar nisso? Eu não consigo acreditar, deve ser falso)”.

Outra ainda era a clássica: “Mas você consegue imaginar isso?”. Essa frase era tirada da cartola de truques no momento em que dava-se um argumento racional para a crença em Deus que mostrava um ser imaterial ou supratemporal. Aqui, se eu tenho uma CONCLUSÃO que exige essas características, então NÃO é possível negá-la na base de “Eu não consigo acreditar que P (existe um ser imaterial)”. Caso contrário, é falácia.

O próprio Descartes já havia dado uma bangornada nesse tipo de raciocínio no seu Discurso do Método:

Mas o que faz muitos com que muitos se persuadam de que há dificuldade em conhecê-Lo [i.e., Deus], e mesmo em conhecer também o que é a própria alma, é que eles nunca elevam o espírito além das coisas sensíveis, e estão de tal modo acostumados a considerar tudo somente imaginando, modo de pensar específico para as coisas materiais, que tudo que não lhe é imaginável lhe parece não ser inteligível. (…) E parece-me que aqueles que querem usar sua imaginação para compreendê-las procedem como se, para ouvir os sons ou sentir os odores, quisessem servir-se dos olhos; sem contar ainda a diferença de que o sentido da visão não nos assegura menos da verdade de seus objetos do que os do olfato ou da audição; ao passo que nem nossa imaginação nem nossos sentidos nunca nos poderiam certificar de coisa alguma, sem a intervenção do nosso entendimento.

Enfim, se alguém tentar invalidar sua crença dizendo que é ridículo, estranho ou que não consegue acreditar, é só fazer a perguntinha clássica: “E quem disse que sua opinião importa aqui? Mostre argumentos. Caso contrário, será a falácia da incredulidade pessoal”

Aí, é só esperar o rebolation argumentativo, refutando com a mesma força de antes.

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