Técnica: Há muitos cientistas/intelectuais ateus, logo o ateísmo deve ser correto

Basicamente, essa é mais uma técnica do neo-ateísmo voltada para propaganda. Ela tenta pegar um suposto número de ateus (não raro, números esses inflados) entre os cientistas ou entre as classes letradas e jogar isso na mesa como uma evidência a favor do ateísmo. Não deixa de ser uma pequena variação do argumento que alguns fazem falando do “número de 85% de ateus na Suécia”, um suposto “paraíso terreno”. Funciona psicologicamente, mas não racionalmente. Nesse caso, a ultra-bobagem pode vir dessa maneira:

  • “Centenas de cientistas famosos acreditam que Deus não existe. Portanto, como então o ateísmo poderia estar errado?”

Pensou certo? Que nada. Essa é um aplicação pura e simples do argumentum ad verecundiam, que é uma falácia lógica.

O argumentum ad verecundiam ocorre quando você arrola, para argumentar, falsas autoridades sobre um campo de discussão. Fazendo uma analogia, alguém pode dizer que “Muitos cientistas famosos rejeitam a teoria da evolução”. Mas quando se confere quem são, não há nenhum, ou quase nenhum, que realmente seja um especialista em biologia evolutiva. Portanto, não houve um caso contra a evolução nessa proposição. Ou: “Pelé considera que Lula é a melhor opção para presidente do Brasil”. Ora, Pelé é uma autoridade, mas apenas em jogar futebol. Sua opinião em política e economia brasileira não tem valor de autoridade.

A discussão sobre a existência de Deus ou da filosofia da religião é uma discussão de uma parte bastante especializada da filosofia. O que devemos esperar que os cientistas entendam é de sua área específica de trabalho, não desse estudo filosófico. E os “intelectuais” nem se fala. Na maioria das vezes, tratam-se de músicos, compositores, jornalistas que ficaram famosos e, na mente de alguém, ganham o poder mágico de palpitar desde política externa até o tipo de alimentação que você deve ingerir. Quando você verifica, vai ver que nenhum, ou quase nenhuma, dessas pessoas citadas realmente tem gabarito para ser considerada uma autoridade no assunto.

Pense um pouco: um microbacteriologista acha que Deus não existe? Aleluia, então isso prova que ele não existe mesmo! Um cientista que trabalha com eletricidade pensou quem Deus é o “amigo imaginário dos adultos”? Amém, senhor! Obrigado por essa revelação! Um químico especialista em combustíveis acha que Deus, quase com certeza, não existe? Benza-me! Só a química de combustíveis pode nos iluminar dessa forma!

Mas, espere aí – o que esses caras realmente entendem de argumentos a favor e contra a existência divina para alguém levar suas opiniões em conta?

Falando sério, a opinião deles vale tanto, a princípio, quanto a de um cidadão comum, pois estão dando pitaco fora do seu domínio de estudos. E mesmo que fossem autoridades no campo de discussão, ainda deveríamos ter sérias dúvidas em usar isso como um argumento a favor da veracidade de uma posição p qualquer.

Em certa medida, está tudo bem aceitar a visão de autoridades. Mas a mera constatação de concordância entre elas não basta para definirmos algo como existente ou inexistente.

Vamos lembrar. Há muitas décadas, possivelmente era um consenso entre os cientistas a existência de uma substância chamada éter. Decerto quem alegasse que o éter não existisse poderia até ser ridicularizado ou excluído da vida acadêmica.

Mas o que se descobriu no final das contas?

Que o éter realmente não existia. A partir da Teoria da Relatividade de Einstein (de quem não tenho certeza se chegou mesmo a rejeitar pessoalmente o éter) (*), experimentos foram conduzidos e esse elemento foi, pouco a pouco, sendo jogado para fora do campo do dia-a-dia da ciência.

Eram as autoridades no assunto que tinham um consenso que o éter existia. Mas, no fim das contas, estavam todos eles errados. O éter virou uma peça de museu nas elaborações científicas, com valor histórico, mas não mais prático. Como se vê, não dá para colocar como certa uma posição pelo “consenso democrático de autoridades”, mesmo quando sejam autoridades “válidas”, pois não é assim que se determina a verdade. Talvez essa pré-disposição seja um indicativo de que poderíamos usar essa posição como referência inicial na discussão. Mas não chega a ser um validador epistemológico da mesma.

Outro exemplo. Eu não tenho o dado estatístico, mas tenho o “leve” palpite que a maior partes dos acadêmicos de ciências sociais como sociologia ou antropologia siga linhas marxistas. Isso me obriga a aceitar o marxismo como correto quando for de tratar de sociologia? Não. Eles que vão ao diabo com seu marxismo. Nós temos algumas análises interessantes sobre a falsidade desse sistema e não é porque os ditos “especialistas” o aceitam de forma majoritária que eu devo doar meu cérebro para eles.

Portanto, mesmo se forem especialistas da área, a suposta predominância da posição pnão nos permite concluir que p é correto, o que, por extensão, aplica-se ao caso de um maior número seja de ateus ou teístas em um ambiente qualquer.

A última tentativa do neo-ateu poderá ser um self-selling do tipo “É óbvio, cientistas usam razão e a lógica, logo percebem que não é preciso de seu Deus para explicar o mundo”. Como eu já expliquei aqui, trata-se de fraude intelectual. Não houve uma demonstração que eles realmente usam mais a lógica e a razão, especialmente nesse assunto – só uma “carteirada” do outro lado. Basta ver as bobagens colossais ditas por Dawkins, por exemplo, que é cientista. Lewis Wolpert (biólogo) achava que Deus era um ser humano com barba, como uma criança de 8 anos acharia. Peter Atkins (químico renomado e famoso) também errou o básico do básico. É puro wishful thinking do neo-ateu achar que eles realmente usam mais a lógica ou a razão e que devem estar corretos nesse ponto.

Conclusão

Essa é uma falácia manjadíssima. Para refutá-la, basta ter o mínimo conhecimento de um manual de lógica, que é um mínimo do “core” que um teísta conservador deve ter antes de entrar em debates.

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