Técnica: Criticismo Bíblico valida o ateísmo (“Não gosto da Bíblia, logo Deus não existe”)

Nessa artimanha, o neo-ateu usará de alguma ou de várias críticas à Bíblia (como uma crítica moral, uma crítica história, uma suposta contradição, existência de milagres, transformar passagens metafóricas em literais, etc.) como fundamentação ao ateísmo. Normalmente é acompanhada da técnica “Bíblia de Palha” (ou seja, criar interpretações próprias da Bíblia e criticá-las com base nisso – por exemplo, no estratagema “Você acredita em mundo de 6.000 anos!”).

Pode acontecer da seguinta forma:

  • “Dê-me a Bíblia, eu mostro as contradições e então PROVO que Deus não existe”.

Ou em uma variação pessoal:

  • “Virei ateu porque li a Bíblia. Foi assim que percebi que Deus não existe.”

Um tipo histórico:

  • “Como você quer que eu acredite em Deus se a Bíblia foi usada para justificar o Holocausto???”

Claro que tal linha de raciocínio está errada.

Para o Cristianismo ser verdadeiro, temos que ter duas condições:

  • (a) Deus (um ser pessoal, transcendente e necessário) existir;
  • (b) Jesus ser a “forma” pela qual nos relacionamos com Ele;

A Bíblia depende de (a) e (b). Mas (a) e (b) não dependem de não existir nenhum defeito ou mesmo da validade da Bíblia para terem valor de verdade. O truque aqui é a transformação do teísmo em uma crença que é igual a crença na inerrância bíblica. Como explicou Luciano Ayan no seu artigo “Engordando” o número de ateus com deístas e agnósticos:

Nesse caso específico, o neo ateu transformaria o teísmo em uma crença em Deus conforme uma interpretação literal da Bíblia, e para qualquer outra definição ele já usaria um rótulo “não teísmo”. Ou seja, um exagero injustificável, pois ele adicionaria atributos ao teísmo de forma exagerada, para então catalogar como ateísmo tudo que não estiver dentro destes atributos anteriores.

Em resumo: mesmo que uma crítica a Bíblia seja bem sucedida, é possível continuar sendo teísta e cristão? É claro.

Para ver o absurdo da situação, imagine o seguinte diálogo ocorrido depois da morte de um homem qualquer com Deus:

  • “José, parabéns. Você conseguiu. Você foi fiel a Jesus Cristo e graças a isso agora está no Paraíso”.
  • “Mas, Deus, responda-me algo”.
  • “Sim, meu filho.”
  • “Ezequiel, 2:9, estava correto?”
  • “Ih… Essa parte aí estava errada”.
  • “Droga! Toda minha vida foi uma mentira! Havia uma parte errada! Obrigado pela informação, Deus! Agora eu sei que Deus não existe! Droga!”

É claro que as coisas não funcionam assim. Se José tirasse essa conclusão, estaria, no mínimo, em um caso grave de paralaxe cognitiva.

E mais: digamos que essa passagem citada (escolhida aleatoriamente) estivesse errada mesmo. Isso faz que TUDO que está escrito na Bíblia esteja errado? Nem de longe. Aceitar isso seria o estratagema da Ampliação Indevida (parte de X está errado, logo todo X está errado). Portanto, mesmo se fosse o caso do adversário te vencer especificamente sobre uma passagem (o que é difícil) em um certo momento, aquilo prova que… a passagem não é digna de crédito, não a Bíblia inteira. Só isso.

Talvez alguém reclame que identificar um erro cause “perda de confiança no restante”. Mas devemos nos perguntar: de onde surgiu essa confiança em primeiro lugar? Digamos que eu aceitei a cosmovisão cristã como a mais coerente e por isso, a princípio, confio nos trechos da Bíblia como uma fonte de informação teológica. Se há um erro em um trecho, isso derruba aquele trecho; não meu alicerce para confiar nos outros. Essa reclamação só seria válida para alguém que baseasse sua confiança em um raciocínio circular como “A Bíblia não pode ter erros” porque “Ela diz que é infalível”, etc.

Sem falar que a maioria dessas críticas normalmente é relacionado com um aspecto “moral” (do tipo “Deus não poderia ter feito um Dilúvio”) ou “científico”.

Se for o aspecto moral (normalmente baseado na falácia Moralidade de Deus é julgada pela moralidade dada aos humanos), então de cara a reclamação é descartada. Não se julga a validade de alguma coisa pelo que eu gosto ou não gosto ou pelo que meus valores modernos seculares me dizem.

E quanto aos aspectos científicos? Como eu expliquei no artigo Se a Bíblia não for toda literal, como saber o que é e o que não é?, a Bíblia não  é um livro científico: ela não foi feita para descrever sistematicamente o mundo natural, como fazem as pessoas nos laboratórios. O objetivo principal da Bíblia é possibilitar uma aproximação do homem com Deus. E para realizar essa aproximação, o escritor bíblico pode utilizar dos vários sentidos que encontramos na Escritura, como o moral (orientando os valores e os costumes – por exemplo, ao lermos o mandamento “Não matarás”, entendemos que esse trecho possui um sentido moral), o alegórico ou metafórico (que servem de auxílio para descobrirmos os significados das coisas complexas ou ocultas), o literal (relatando fatos históricos que realmente aconteceram) e o anagógico (que é focado no encaminhamento das realidades transcendentais).

Qualquer crítica que vá por “aspecto X da Bíblia é falho cientificamente” não funciona, pois, como expliquei, o domínio da Biblia não é esse.

Em relação a supostas contradições (que alguns sites, como o Descontradizendo Contradições, comentam), vale o mesmo da Ampliação Indevida comentada nos parágrafos anteriores.

Se a crítica for em relação a uma consequência histórica específica, aí caimos no argumento ad consequentiam, conforme comentado em Críticas sociológicas a religião validam o ateísmo.

De qualquer forma, o neo-ateu não estará justificado por críticas ao conteúdo da Bíblia. Em todos esses casos, Deus ainda poderia existir. A análise da Bíblia e da existência de Deus são feitas separadamente. Logo, não a fundamentação aqui estaria errada.

Em resumo:

  • (1) Embora a validade da Bíblia dependa da validade do Cristianismo, o inverso não é verdadeiro;
  • (2) Se o questionamento for do tipo moral pessoal, já é descartado, pois não se avalia a validade de algo por gosto pessoal;
  • (3) Se for científico, falha, pois a “Bíblia” não tem o objetivo de ser um livro de descrição de causas e efeitos no mundo natural (e a Ciência não legisla proibindo milagres – como visto aqui [link quebrado]);
  • (4) Se o centro da disputa for em relação a um aspecto teológico relevante, então ela pode, no máximo, danificar aquele aspecto, não o Cristianismo em geral;
  • (5) Mesmo que o criticismo seja bem sucedido, ele serve apenas… para estabelecer a crítica aquela passagem, não a invalidade geral da Bíblia (ampliação indevida);
  • (6) Portanto, mesmo que toda a Bíblia fosse inválida, não seria o caso de pular para o ateísmo, pois a discussão da existência de Deus é feita separadamente da validade da Bíblia;

Um exemplo rápido:

  • NEO-ATEU: Jesus expulsou dois demônios e os fez entrar em porcos que morreram. Como posso acreditar em Deus se a Bíblia contém uma história de maldade como essa?
  • REFUTADOR: Mas no que isso implica na inexistência de Deus?
  • NEO-ATEU: E por que Jesus faria algo assim?
  • REFUTADOR: Bom, pode ser que ele tivesse motivos morais suficientes para isso. Pode ser que o impacto dessa cena fosse necessário para ensinar algo para os que estavam ali.
  • NEO-ATEU: Jamais aceitarei isso. A passagem é falsa!
  • REFUTADOR: Para argumentar, vou conceder o ponto: pode ser que essa passagem em específico não seja digna de crédito, vá lá. Mas, de novo, no que isso demonstra que Deus não existe e que Jesus não é mediador entre os homens e ele ou que o restante da Bíblia é falsa?
  • NEO-ATEU: Ora, mas são vocês que dizem que a Bíblia é a palavra de Deus, portanto não pode ter erros se ele existir  ¬¬
  • REFUTADOR: Você está invertendo a relação causal. Se eu vendo um quadro dizendo ser de Van Gogh e você descobre ele uma parte em que ele foi modificado, então significa que o quadro tem uma falha, não que Van Gogh não existe; e muito menos que não há nenhuma participação de Van Gogh no processo (ainda poderia ter alguma). Calma lá com seus saltos lógicos. As coisas não são tão simples quanto você coloca.

[E assim vai]

Conclusão

Notem que eu não estou dizendo que a Bíblia não é importante ou que não deveríamos defendê-la. Só devemos ter algo em mente: quando um ateu ataca certa parte da Bíblia, ele está só criando uma crítica a tal parte. Não criando um validador do ateísmo. É importante ter isso em mente para não ser “trapaceado” em uma disputa.

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