Técnica: Críticas sociológicas a religião validam o ateísmo

Uma das coisas curiosas nos debates entre neo-ateus e teístas na internet é que quando a coisa aperta para o lado neo-ateu começamos – do nada – a ter que ler milhares de críticas sociológicas sobre a religião. “A Inquisição fez isso”, “Se não fosse a Idade das Trevas, poderíamos estar explorando o espaço” (com um gráfico do NoBeliefs.com), “A AIDS é culpa dos católicos”, “Protestantes roubam dinheiro dos pobres” e por aí vai. Quem participa dessas comunidades de debate sabe disso.

Basicamente, o que eles tentam usar para criar uma justificativa para o ateísmo é um suposto revés causado pela religião historicamente. Uma variação genérica da reclamação seria algo como “sou ateu, porque as religiões causaram muitos maus para a humanidade”.

Mas isso tem sentido? Não. Essa é só uma aplicação direta da falácia lógica do argumentum ad consequentiam, em que uma ideia não é julgada por seu valor de verdade, mas pelo impacto produzido historicamente.

Seria como dizer, “sou criacionista, porque a evolução foi usada para defender o nazismo.”

O correto aqui seria perguntar: “Mas no que isso [uso pelo nazismo] implica na invalidade da Teoria da Evolução cientificamente?”

Em nada. Ela poderia ter sido usada de forma errada e tudo mais e mesmo assim poderia ser correta.

A mesma coisa vale para essa questão: “Supondo que a religião causou muitos maus para a humanidade, no que isso implica logicamente na inexistência de Deus?”

E, depois dessa pergunta, você deixa claro qual é o erro do outro debatedor. Sempre que possível, não use seu tempo para convencê-lo do contrário sobre os benefícios históricos da religião (até dá para citá-los por cima, mas talvez isso cause um desvio), mas FOCAR no tópico que está sendo discutido (ateísmo x teísmo) que independe de análises sociológicas.

Com essa observação bem colocada, muito do trabalho dos autores neo-ateus é esvaziado. Os livros deles estão recheados de anedotas anti-religião para fazê-la não só parecer “irracional”, mas também “imoral”, numa verdadeira lavagem cerebral. Como disse Alister McGrath sobre Dawkins no [[seu livro O Delírio de Dawkins]], o biólogo quando vai falar do teísmo sempre apresenta “o patológico como o normal, o extremo como o centro, o excêntrico como o padrão. Isso em geral funciona bem para o seu público, que supostamen­te pouco conhece de religião e, com muita probabilidade, menos ainda se importe com ela.”

Infelizmente, o leitor médio (principalmente brasileiro) aceita com facilidade essas críticas e acaba gerando um “background” psicológico prejudicial para a aceitação do teísmo.

Isso se explica porque todo nosso sistema de ensino tem, em algum ponto, influências do materialismo histórico marxista. Para eles, a verdade não era importante; os intelectuais não devem “entender” o mundo, mas transformá-lo. Vê-se que, por esse critério, acabamos por aceitar visões não pelo seu valor de verdade, mas pela capacidade de mobilização.

E como a religião é “alienadora”, então VALE TUDO contra ela (a moral também é “variável” no marxismo, pois a “antiga” e “eterna” era burguesa). O ensino é feito com base em construir uma imagem histórica terrível da influência religiosa.

Saia por aí e pergunte para as pessoas se elas acham que é verdade que “A Igreja matou milhões ou milhares de cientistas na Inquisição”. Depois, pergunte o nome de cinco desses cientistas que foram mortos… e veja silêncios e confusões (do tipo “Galileu foi morto pela Inquisição”) constrangedoras. Onde será que elas aprenderam esses estereótipos? Na escola, certamente.

É por isso que Dawkins é esperto em sequer refutar o Argumento Cosmológico, mas dizer que seria “perigoso” aceitá-lo para dizer que ele indica Deus.  O engraçado é que o Argumento Kalam aponta para um ser imaterial, pessoal, muito poderoso, etc. como criador do Cosmos. Não há NADA assim no ateísmo. Mas como o sujeito já leu milhões de histórias anti-religiosas, possivelmente acaba por nem pensar nisso: só rejeita pelas consequências que a aceitação dessa dedução implicariam e continua sendo um neo-ateu.

É uma verdadeira “sacanagem”, mas muitas vezes acaba por funcionar. Não deixe o neo-ateu levar a discussão para esse ponto, pois, mesmo que eu acredite que eles também estão espetacularmente errados nessa alegação, não podemos nem devemos colocá-la em pauta quanto a questão for a escolha da visão mais coerente de mundo: ateísmo ou teísmo.

Enfim, um modelo de refutação pode ser esse:

  • NEO-ATEU: Sou ateu, mas apenas porque as religiões já causaram muitos maus no mundo até hoje.
  • REFUTADOR: E no que isso implica a inexistência de Deus?
  • NEO-ATEU: Deus não poderia permitir esse tipo de coisa em seu nome….
  • REFUTADOR: Poderia se ele permitisse que suas criaturas possam agir com livre-arbítrio, certo?
  • NEO-ATEU: Mesmo assim, não posso ter uma religião ou crença em Deus depois de tudo que ocorreu…
  • REFUTADOR: Então você admite que usa aspectos puramente emocionais, e não racionais, para fazer a sua escolha nesse campo? Interessante. Conte-me mais sobre seu ateísmo…
  • NEO-ATEU: Opa, não é bem assim. Na verdade, sou ateu porque não existem evidências para a existência de Deus etc. etc.

[E aí se ele continuar a te enrolar, procure por outras técnicas no blog, pois essa já foi neutralizada]

Conclusão

Essa discussão me lembra do debate de William Lane Craig com Christopher Hitchens. Hitchens, em dado momento, começou meio que a culpar a religião/os religiosos pelo apartheid (!) e pelo stalinismo (!!). O que Craig fez? Simplesmente disse que não ia discutir o assunto, pois ele não importava para o tópico da noite (“Deus existe?”). Aí todo impacto emocional que o neo-ateu poderia ter tirado falando sobre os “horrores da religião” (a maior parte redimensionados ou inventados, é claro) foram pelo ralo e eles se focaram no que realmente importava. Não podemos cair nas falsas premissas dos adversários – fazer isso é deixá-los controlar o jogo, o que é meio caminho para a derrota. É como diz aquela velha frase: “Nunca discuta com um idiota. Ele irá arrastá-lo até o seu nível e então o derrotará com a sua vasta experiência”. Faz todo sentido.

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