Técnica: Cristianismo foi inventado para dominação social

Nessa técnica, o neo-ateu tentará fazer (mais uma) crítica sociológica a religião; dessa vez, justificará a sua crença na maleficidade ou falta de importância do Cristianismo devido ao fato de que ele “provavelmente foi criado somente para dominação social”. Seus líderes não acreditavam realmente naquilo tudo; só queriam tirar uma “casquinha” das outras pessoas e melhorar a própria vida. Assim, não teria valor intrínseco nenhum maior do que esse; seria a hora de esquecer toda essa história e essas idéias de Jesus e seus apóstolos.

A reclamação pode vir mais ou menos dessa maneira:

  • “Eu não acredito no Cristianismo, pois acho que ele foi criado como uma enganação somente para os seus líderes dominarem as classes mais baixas”

Como sempre, a crítica está errada tanto em sua base filosófica quanto na sua base histórica.

Vamos começar pela histórica. Quem foram os principais líderes do Cristianismo nascente? Jesus de Nazaré, Paulo de Tarso e Pedro (Simão).

O que aconteceu com esses homens durante o período em que eles pregaram o Evangelho e deram forma a religião nascente?

Bom, Jesus foi espancado e crucificado. Pedro foi crucificado e deixado a morrer de cabeça para baixo. Paulo de Tarso foi perseguido e decapitado. Praticamente todos os primeiros líderes cristãos, além desses três, também foram perseguidos e viveram na pobreza, quando não foram mortos de forma violenta.

Se eles queriam “dominar e ganhar riquezas”, então eles eram os sujeitos mais burros do mundo pois faziam, em suas ações, EXATAMENTE o CONTRÁRIO. Uma hipótese como essa não pode ser sequer levada a sério. Se eles foram pobres e perseguidos (não ganhando nenhuma vantagem; na verdade, provavelmente PIORANDO o estilo de vida que eles tinham anteriormente) e se deixaram martirizar mesmo assim sem dar para trás, é sinal de que eles acreditavam sinceramente de que aquilo era verdade (atenção: não estou que é verdade por causa desse único fato; mas que é plausível considerar, diante do comportamento apresentado, que a crença dessas pessoas genuína e não somente inventada).

Sem falar que uma das inovações teológicas dos cristãos foi o rompimento do focoexcessivo entra a comunidade humana (com o homem “absorvido” e representado pelo Estado ou Nação, onde a vontade divina se materializava em um aparato político específico) e o mundo sensível (com os deuses como senhores do mundo, mas sem identificação com a transcendência), que seria justamente onde haveria maior “dominação”, em teoria. Eles iniciaram um movimento CONTRA o modelo existente – deslocando essa eixo para uma relação maior do homem com Deus. Como é explicado no livro O Jardim Das Aflições, de Olavo de Carvalho:

Ao mesmo tempo, o Cristianismo retirava o divino do quadro histórico e cósmico em que o aprisionara a imaginação greco-romana, restaurando a noção de um deus supracósmico, transcendente a todas as representações sensíveis. A religião do Império (…) resumia, em última instância, a um diálogo entra a comunidade humana e o cosmos. (…) O Cristianismo rompe esse mundo bidimensional, inaugurando a dimensão vertical da profundidade e da altura (…): de um lado, a profundidade interior da consciência individual, o recinto secreto da intimidade do homem consigo mesmo; de outro, a infinitude, a eternidade, para além do tempo e do cosmos. A dimensão vertical da alma e de Deus, superposta ao confronto horizontal da sociedade e do cosmos, é precisamente um dos simbolismos da cruz. À dimensão moral e cósmica da religião antiga o cristianismo superpôs a dimensão espiritual e metafísica.

(…) Ao propor ao homem um esforço que não se volta nem à satisfação de apetites individuais nem ao melhoramento da sociedade, o cristianismo abre entre a individualidade física e a identidade social um intervalo, o espaço da liberdade interior, a ser preenchido pelo desenvolvimento da autoconsciência. (…) É fácil compreender que essa revolução da auto-imagem humana promovida pelo cristianismo teve no mundo greco-romano o impacto traumático de um corte do cordão umbilical. O advento do Cristianismo encerrava a era do Estado sacerdotal protetor e inaugurava a do homem religioso autônomo e solitário.

Depois de estudar um pouco, talvez ele diga “É dá para ver que não foi inventado para isso… Mas ao longo do tempo pode ter virado uma forma de dominação social.” Aí não é preciso nem sequer discutir: basta lembrar da dica do post “Críticas sociológicas a religião validam o ateísmo”. Essa é só uma variação de uma falácia ad consequentiam; se você quer discutir a validade de algo, é errado abordar por alguma consequência que esse algo gera ao mundo. Para o Cristianismo ser errado, deve-se atacar a sua base metafísica (principalmente a existência de Deus e Jesus Cristo como forma de se relacionar com Ele), não qualquer consequência que ele tenha produzido historicamente. Então essa reclamação também vai para o saco.

E muitas vezes o que eles chamam de “dominação” é simplesmente coesão social. O fato é que alguma coisa une os humanos que vivem no mesmo local civilizadamente – normalmente uma moral comum e compartilhada pelos habitantes, que, ao longo dos séculos, sempre esteve profundamente ligada ao sentimento religioso tradicional. Diante disso, deveríamos nos perguntar: qual o grande problema desse fato? Talvez Deus queria uma coesão social entre os humanos. Talvez ele não queira uma anarquia bárbara e a religião serviu para ajudar os homens a cumprirem livremente esse objetivo. Criticar por um objetivo que a religião poderia ter seria mais uma vez a velha falácia genética.

Em resumo:

  • (1) Criticar algo pela forma que se originou (como fator de coesão social, por exemplo) é falácia genética e não serve de argumento lógico contra o teísmo;
  • (2) Historicamente, sabemos que os líderes cristãos eram pobres e foram até a morte pela sua crença, o que nos dá uma base para afirmar que não eram só interesseiros querendo ganhar algum bem material, o que seria o esperado se eles tivessem objetivos torpes com a sua nova religião;
  • (3) Criticar por uma suposto uso para dominação também não funciona; essa é a falácia ad consequentiam;
  • (4) Se ele quiser provar que o Cristianismo é falso, deve atacar sua BASE metafísica – Jesus e Deus. Fora disso, qualquer crítica pode continuar coexistindo com a veracidade da fé cristã;

Diante disso, já podemos refutá-lo com tranquilidade.

Conclusão

Infelizmente, esse tipo de pensamento acaba sendo mais comum do que era de se esperar em algumas discussões. Possivelmente tem alguma relação com a impregnação de sistemas ideológicos como o marxismo na cultura, onde todas as idéias ou criações representam só um “interesse de classe” e “dominação burguesa” fruto das relações de propriedade e das forças de produção. Analisando mais a fundo, vemos que não, logicamente, a reclamação não se sustenta.

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