Técnica: Ciência permite discussão, religião não

Muitos neo-ateus tentam argumentar uma suposta superioridade da Ciência sobre a Religião pelo fato de que “a Ciência permite discussão, a religião não”. Claro que já cairíamos em uma falácia “acoplada” da Falsa Dicotomia Entre Ciência e Religião (sobre a qual falarei nos próximos dias), pois não faz sentido colocar a questão em termos de disputa entre essas duas áreas de conhecimento, já que elas tratam, no fundo, de magistérios diferentes.

De qualquer forma, será que a sentença “Ciência permite discussão, religião não” é verdadeira?

É o que teremos que analisar nesse post.

Primeiro, temos que fazer uma breve explicação.

TODO sistema de pensamento baseia-se em axiomas, que são “verdades básicas” que são aceitas implicitamente como verdadeiras e servem como ponto de referências para derivar outros conhecimentos.

Por exemplo: em discussões científicas, o materialismo e o empirismo são PRESSUPOSTOS como verdadeiros, mesmo que não exista uma demonstração disso. São “axiomas” científicos. As pessoas que vão trabalhar com Ciência, devem aceitar esses axiomas e trabalhar em cima deles. Toda discussão dentro da comunidade científica deve estar limitada em hipóteses materiais. Se discutirmos algo que não é material, já está fora do escopo científico.

E o mesmo acontece com a religião. No Cristianismo, existem certos pressupostos, como a existência de Deus, que são aceitos e é a partir daí que se fazem discussões  DENTRO do Cristianismo. Mais um exemplo: imagino que nenhum dos padres do Vaticano ao discutir um com outro esteja preocupado se o catolicismo é verdadeiro ou não. Essa é uma verdade que eles já aceitaram anteriormente, e portanto fazem as suas discussões a partir disso.

E esses axiomas impedem discussões internas? De maneira alguma. Tanto é que existem milhares de denominações cristãs, como a Igreja Católica, a Igreja Ortodoxa, Igrejas Não Calcedonianas, Igreja Anglicana, Igreja Luterana, Calvinistas e etc. Ou dentro de apenas uma religião, de que outra forma poderiamos explicar a existência ou de pensamento agostinianos, pensamentos molinistas e pensamentos tomistas se não existissem uma pluralidade de discussões internas?

Aos que disseram, “Ah, mas essa discussão na religião só existe depois da Idade Média”, basta lembrá-los que estão cometendo um erro histórico. A doutrina cristã não nasceu pronta, mas foi sendo moldado aos poucos através de discussões filosóficas entre os principais membros da Igreja. Como explicou Olavo de Carvalho no seu primeiro texto do debate com Rodrigo Constantino:

1.1. Desde os seus primórdios, a religião cristã sempre se abriu à discussão, como o evidenciam os escritos dos primeiros padres, quase todos eles compostos em resposta aos críticos da nova fé ou a divergências internas quanto ao seu significado. É absurdo que alguém entre num debate sobre o cristianismo ignorando o dado mais elementar da sua história, isto é, que a nova religião não surgiu como uma doutrina pronta, mas como fato de ordem espiritual e histórica, só adquirindo forma doutrinal aos poucos e, precisamente, ao fio das discussões internas e externas. Mais tarde, foram os filósofos cristãos que desenvolveram ao máximo a arte da discussão dialética (disputatio), o que seria uma extravagância inexplicável se não apreciassem a prática do debate, seja entre si, seja com os filósofos judeus e muçulmanos. Isto são fatos tão abundantemente comprovados pela História que não deveria ser necessário insistir neles se o presente estado de teratologia cultural brasileira não fizesse brotar por toda parte palpiteiros arrogantes que ignoram tudo dos assuntos que pretendem discutir. (V. NOTA no fim deste tópico.) Em todo caso, um bom sumário da evolução das discussões medievais encontra-se em Alois Dempf, La Concepción del Mundo em la Edad Media (Madrid., Editorial Gredos). Por fim, resta considerar que, ao longo da História, talvez nenhuma outra comunidade tenha produzido tantos debatedores e polemistas admiráveis como a comunidade cristã, de Sto. Tomás até Donoso Cortés, Newman, Chesterton, Bloy, Veuillot, Bernanos e os nossos Leonel Franca e Gustavo Corção entre outros inumeráveis, o que permaneceria um enigma incompreensível se fosse próprio da religião cristã furtar-se ao debate.

Thomas Wood também comentou esse fato, abordando o período medieval em específico:

Em matérias de fato, uma das maiores e mais importantes contribuições para a ciência moderna foi essencialmente o livre questionamento do sistema universitário, onde acadêmicos podiam debater e discutir propostas e no qual a utilidade da razão humana foi reconhecida. Contrariamente a grosseiramente inadequada figura da Idade Média que permeia o senso comum de hoje, a vida intelectual medieval fez contribuições indispensáveis para a Civilização Ocidental. No seu livro The Beginnings of Western Science (1992), David Lindberg escreve:

“Deve ser enfaticamente constatado que dentro desse sistema de educação medieval havia uma grande quantidade de liberdade. O estereótipo da Idade Média do professor covarde e subserviente, um escravo seguindo Aristóteles e os pais da Igreja (exatamente como alguém poderiam ser escravos dos dois, o estereótipo não explica), com medo de sair de linha que demandavam as autoridades. Haviam limitações teológicas, é claro, mas dentro desses limites os mestres medievais tinham uma notável liberdade de pensamento e expressão; não havia praticamente doutrinada, filosófica ou teológica, que não era submetida a escrutínio e criticismo pelos acadêmicos na Universidade medieval.”

“Acadêmicos da Idade Média Tardia,” conclui Lindberg, “criaram uma ampla tradição intelectual, em cujo ausência o progresso na filosofia natural teria sido inconcebível.”

O Historiador da ciência Edward Grant concorda com esse julgamento:

“O que fez possível para a Civilização Ocidental desenvolver a ciência e os estudos humanos de uma maneira pela qual nenhuma civilização tinha feito antes? A resposta, eu estou convencido, está em um penetrante e profundo espírito de questionamento que foi uma consequência natural na ênfase dada à razão que começou na Idade Média. Com exceção das verdades reveladas, a razão foi entronada como o último árbitro para a maioria das discussões e controvérsias. Foi praticamente natural que acadêmicos imersos em um sistema universitário  usassem da razão para provar em assuntos e áreas que não tinham sido explorados antes, como também para discutir possibilidades que não tinham sido seriamente consideradas anteriormente.”

A criação da Universidade, o compromisso com a razão e a argumentação racional, e o espírito geral de questionamento que caracterizam a vida intelectual medieval equivalem a “um presente que a Idade Média Latina deu para o mundo moderno… embora seja um presente que possa nunca ser descoberto. Provavelmente sempre irá manter o status que teve dos últimos quatro século como o segredo mais bem guardado da civilização Ocidental.”

Apenas para citar alguns dos vários filósofos em disputa nesse período, com visões muitas vezes diferente ou até mesmo opostas, podemos falar de Anselmo de Cantuária, Pedro Abelardo, Alberto Magno, Duns Scotus, Guilherme de Ockham, Boaventura, Tomás de Aquino, Francisco Suárez, Luis de Molina e por aí vai. (*)

Ou seja, a idéia de que não “haviam discussões” não passa de uma caricatura grotesca, que nada tem a ver com a realidade dos fatos.

Também devemos lembrar que os os axiomas SÃO igualmente discutidos de forma constante. A existência de Deus, por exemplo, que é um axioma na discussão dentro de uma comunidade religiosa, é um fato constantemente debatido tanto externamente com pessoas que acreditam na sua inexistência quanto com outras pessoas que fornecem objeções mesmo acreditando nele. Basta lembrar, por exemplo, que eu citei um texto de Aquino em um post recente para comentar a objeção de que Deus não poderia existir pois não poderia ser onipotente, questão que o filósofo já havia tratado.

Na Ciência, muitos criticam o modelo atual, que é basicamente baseado em Karl Popper, por considerá-lo muito restritivo. Certas áreas da psicologia sequer podem ser consideradas “científicias” dentro do padrão atual, o que leva à contestações do modelo, assim como se constesta o axioma interno das religiões que “Deus existe”.

Ou seja, tanto a Ciência como a Religião permitem, sim, discussões, que são limitadas por princípios básicos aceitos anteriormente, é verdade. Mas essas próprias limitações também são discutíveis.

Em suma, para refutá-lo, basta lembrar dos seguintes fatos:

  • (1) Todo campo de discussões começa, obrigatoriamente, pela aceitação de axiomas compartilhados entre as partes que servirão para guiar e validar as discussões;
  • (2) As religiões, assim como a ciência, possuem esses axiomas (no caso do Cristianismo, a existência de Deus, a existência de Jesus, etc; no caso da ciência, o materialismo, o empirismo, a universalidade das leis físicas, etc) e DENTRO deles são realizadas várias contendas que dão origens a diferentes pontos de vista;
  • (3) Mas os PRÓPRIOS axiomas SÃO questionáveis e também dão origens a discussões entre grupos que não os aceitam (como ateus, que não aceitam a existência de Deus e propõem argumentos para inexistências; ou neo-céticos e relativistas, que não acreditam na possibilidade do conhecimento e rejeitam o uso da Ciência como fonte fidegnina de informações);
  • (4) No fim das contas, sempre existiram grandes discussões sobre religião; as antigas disputas históricas sobre filosofia cristã, que formaram a Igreja e o próprio neo-ateísmo são provas que a religião é sim colocada sobre discussão;

Mostrando esses pontos, já temos uma base para ganharmos a discussão.

Conclusão

A idéia de que “a religião não permite discussões” não passa, no fundo, de mais um senso comum feito pelas máquinas de propaganda. O engraçado é que o mesmo Deus que é acusado de ser responsável por permitir mais de um ponto de vista, deixando o homem confuso sobre qual escolher, leva na conta o crime de “não permitir discussões”. Dá para entender?

(*) Evidentemente, essa lista de pensadores cobre um período longo de tempo. Citei-os por serem alguns dos mais famosos e reconhecíveis, o que não significa que eles estivessem todos simultaneamente discutindo uns com os outros, embora os legados dos pensamentos desses filósofos sempre acabasse influenciando e servindo de ponto de partida para discussões dos que vieram depois deles.

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