Técnica: Bule de Russell (2)

[Esse post deve ser analisado EM CONJUNTO com o outro post sobre o Bule de Russell – aqui; e vice-versa]

A inspiração do site da Liga Humanista Secular do Brasil, como o nome indica, é a famosa declaração de Betrand Russel sobre um bule de chá que gira à volta do planeta, implicitamente comparada à ideia de Deus. Russel tentava definir quem tem o ónus da prova: o ateu que O nega, ou o crente que Nele crê. Analisando o excerto colocado no site da liga de humanistas como apresentação do projecto:

“Muitos indivíduos ortodoxos dão a entender que é papel dos céticos refutar os dogmas apresentados, em vez dos dogmáticos terem de prová-los. Essa idéia, obviamente, é um erro.”

Russel começa por adjectivar como “ortodoxos” e “cépticos” as partes que estão a debater aquilo que ele chama de “os dogmas”. Portanto, a questão já está enviesada, porque parte do princípio de que um debate sobre os tais “dogmas” se trata de uma sessão em que os “cépticos” nos dogmas apenas têm que ficar calados enquanto os outros os tentam convencer. Na verdade, ninguém tem o ónus de convencer o outro lado. Em debate, as duas partes têm o ónus de apresentar os seus argumentos.

Quem tem o ónus de demonstrar, é sempre quem acusa/afirma/alega/declara, seja existência, seja inexistência. Portanto, a questão central da apresentação que Russel teoriza teriam de ser “os dogmas”, e não “os cépticos” neles.

Tem o ónus de provar os dogmas, quem os apresenta como verdadeiros. Nesse ponto, Russel está certo. Mas se se trata de um debate, significa que quem os declara como falsos, também o ónus de argumentar contra a sua veracidade.

Caso contrário, não é um debate mas um julgamento injusto. Os “ortodoxos” entram acusados de não terem provas dos seus “dogmas”, e são eles a terem a responsabilidade de se ilibarem dessa acusação. Pior, o juíz do debate seria a convicção de quem fez a acusação: como se aos “cépticos” nos tais dogmas, bastasse alegar não terem ficado convencidos, para valer a tese de que os dogmas são falsos.

Ora, levando a metáfora um pouco mais longe, a presunção de inocência obriga a que tanto os “ortodoxos” como os “cépticos”, iniciem o debate como inocentes de erro até prova em contrário. Essa prova, terá de se basear inteiramente na análise objectiva dos dogmas. Às duas partes, cabe-lhes fazer as respectivas defesas das suas posições. Se eu debato com um ateu, e eu acredito que Deus existe, não é para o tentar convencer, mas para confrontar as minhas provas, argumentos, factos, raciocínios, etc, com as dele. No fundo, um debate é um serviço à verdade.

Mas Russel parece ter sido o pioneiro deste novo tipo de debate proposto pelos neo-ateus: eu penso que estás errado; prova-me que não estás errado!

É então invocada a porcelana com a qual o falecido Russel viria a ganhar popularidade na comunidade neo-ateísta do século XXI:

“De minha parte, poderia sugerir que entre a Terra e Marte há um bule de chá de porcelana girando em torno do Sol em uma órbita elíptica, e ninguém seria capaz de refutar minha asserção, tendo em vista que teria o cuidado de acrescentar que o bule de chá é pequeno demais para ser observado mesmo pelos nossos telescópios mais poderosos.” 

Não valeria a pena demonstrar como falso aquilo que Russel já confessa estar a inventar, “sugerir”. Uma posição tão fraca e confessadamente infundada, não merece nem é possível ser debatida. Mas imaginando que ele tinha afirmado essa existência, convictamente, olhemos a definição do bule de chá:

1- Objecto físico, em porcelana.
2-Girando em órbita elíptica entre dois planetas.
3-Pequeno demais para poder ser observado pelos telescópios mais poderosos.

Trata-se de uma contingência. A existência ou inexistência desse objecto, é totalmente irrelevante em termos ontológico, moral e teleológico.

Objectos físicos podem girar em torno de planetas enquanto são demasiado pequenos para serem vistos por humanos. Não há nenhuma contradição ou novidade lógica nessa suposta proposição.

Quanto muito, seria um problema de descrição científica. Se Russel alegasse conhececer tal objecto, eu só poderia ser céptico quando a isso, se soubesse a razão pela qual ele dizia existir o bule. Aí sim, poderia colocar em causa essa razão.

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