Técnica: Bíblia não pode ajudar a estabelecer existência de Jesus

Um procedimento que pode ser notado em debates com neo-ateus é uma insistência em afirmar que Jesus nunca existiu. Quando eu debatia na Contradições do Ateísmo, os neo-ateus primeiro afirmavam que Jesus não tinha existido (no sentido de não existir SEQUER como uma pessoa comum). Em seguida, confrontados para justificar sua alegação, eles respondiam de alguma maneira como essa [1]:

  • NEO-ATEU: Então prove que Jesus existiu, e quero fontes que não sejam a Bíblia.

Os teístas costumavam baixar a cabeça para essa exigência e tentavam trazer fontes extra-bíblicas para dar suporte a tese de que existiu uma pessoa chamada Jesus naquela época. E embora alguns autores defendam que o referencial fora da Bíblia existe (assunto que não é do escopo do post), uma dúvida fica: por que necessariamenteextra-bíblicas? Por que, a priori, segundo o argumento neo-ateu, a fonte bíblica não pode ajudar a estabelecer a existência da pessoa Jesus? Quando alguém sugeria que a Bíblia podia cumprir esse papel, uma outra resposta, como a seguinte, era postada:

  • NEO-ATEU: Ah sim, então eu também posso provar que Maomé existiu pelo Alcorão, que Isis existiu pelo Livro dos Mortos e que Zeus existiu pela mitologia grega. A fonte NÃO pode ser a Bíblia. Tem que ser FORA da Bíblia, entendeu agora o porquê?

Uma confusão infeliz surge nesse ponto. Obviamente, uma pessoa que faz esse tipo de raciocínio deve achar que o argumento estava sendo feito da seguinte maneira:

  1. Tudo que a Bíblia diz é verdade;
  2. A Bíblia diz que Jesus existiu;
  3. Logo, o fato de que Jesus existiu é verdade;

E, a menos que o teísta tivesse como dar um suporte para (1) que não exista para o Alcorão ou para o Livro dos Mortos, por exemplo, já que (2) é obviamente verdade, não podemos chegar à conclusão desejada. Um único problema: o argumento NÃO precisa ser necessariamente assim.

Uma coisa precisa ficar clara: a Bíblia não caiu prontinha do céu, com zíper, capa, edição e tudo mais. O que existe hoje como Bíblia (ou como Novo Testamento, que é o que mais interessa aqui) é um compilado de documentos originalmente esparsos produzidos por diversas pessoas ao longo de algumas décadas. E os historiadores não precisam partir desses documentos comoa  “verdade sagrada”. Esses documentos podem ser analisados como documentos históricos sujeitos à análise histórica. A única diferença deles para documentos fora da Bíblia é que… eles foram reunidos na Bíblia.

Reunidos esses documentos (como os Evangelhos sinóticos), os historiadores se perguntam: qual a hipótese que melhor explica o surgimento desses documentos? Afinal, alguém realmente acredita que os documentos surgiram do nada, para o nada e por nada, sem causa, simplesmente pipocando à existência sem razão? (Bem, talvez alguns neo-ateus, já que eles defendem que foi assim que o Universo surgiu….)

Enfim, os motivos que explicam a existência desses documentos são consubstanciados em uma hipótese. Depois disso, julga-se a melhor. Para fazer esse julgamento, alguns critérios, como os seguintes, devem ser observados:

  • (1) A hipótese deve implicar em outras afirmações que descrevam os dados conseguidos;
  • (2) A hipótese deve ter um escopo explanatório maior (i.e., levaria a observar uma maior variedade dos dados) que as hipóteses rivais;
  • (3) A hipótese deve ter um poder explanatório maior (i.e., faz os dados serem mais prováveis) que as hipóteses rivais;
  • (4) A hipótese deve ser mais plausível que as hipóteses rivais;
  • (5) A hipótese deve ser desconfirmada por menos crenças já aceitas (i.e., em conjunto com verdades aceitas, implica em menos afirmações falsas) que as hipóteses rivais;
  • (6) A hipótese deve ser tão superior no preenchimento das condições (1) a (5) que há pouca chance de uma hipótese rival, depois de mais estudos, exceda sua capacidade de preencher essas condições;

Pela lei do terceiro excluído, só temos duas hipóteses para esse caso:

  • (1) “Existiu uma pessoa chamada Jesus” (que teria inspirado o movimento cristão, o registro dos fatos escritos no Novo Testamento e o martírio de seus seguidores);
  • (2) “Não existiu uma pessoa chamada Jesus” (e o que houve foi que algumas pessoas se reuniram, criaram toda a história por alguma razão e arriscaram suas vidas, tudo a partir de uma ilusão que eles mesmos criaram);

Qual é a hipótese mais razoável para explicar a existência desses documentos? Isso é algo para de discutir. Mas o importante é que não há nenhum motivo a priori para descartar os documentos que foram compilados no que hoje chamamos de Bíblia como fonte para pesquisa histórica. Se o neo-ateu quiser dizer que a Bíblia não pode ser usada por historiadores para sua pesquisa, então ele deve dar um argumento a posteriori – um motivo para confiarmos em uma hipótese que explica melhor os documentos que estão na Bíblia dentro de uma continuidade histórica sem a existência de Jesus do que a hipótese que Jesus existiu.

“Ah, mas e o Alcorão, serve como pesquisa para demonstrar Maomé?”. É claro que, a princípio, pode servir. Dado que existem esses documentos do Alcorão, a hipótese de que existiu um Maomé histórico explica melhor a existência desses documentos ou não? Discuta-se isso, oras. Se ele (ou Jesus) eram verdadeiros mensageiros religiosos, essa é uma outra história, que talvez já entre no campo da Filosofia (depende se consideramos a existência de Deus, etc).

Enfim, os teístas podem ficar ligados. Colocada no plano certo, a Bíblia pode sim, a princípio, servir para ajudar a estabelecer a existência de Jesus.

Anúncios