Técnica: Ateu Dramático

Essa é uma técnica de debate em que o neo-ateu desistirá da argumentação, passando a apelar para as emoções para criticar a ideia de Deus ou a ideia religiosa que estiver em jogo. Ele dirá que Deus é “castrador”, “injusto”, “incompetente”, “deixa crianças jovens morrerem sem aproveitar a vida”, “não tem compaixão para mim”, etc. E o religioso tem que dar uma resposta que conforte o subjetivismo emocional do neo-ateu pois, caso contrário, ele rejeitará tudo aquilo que o teísta acredita.

Um exemplo de ateu que faz seu lado dramático pode ser encontrado abaixo:

FORISTA: Quando nos tornamos Ateus, os motivos nao sao a principio, a falta da existencia de um “ser” (Deus) que surgiu do nada, o que nos faz questionar sao seus supostos atos ou a falta deles, e tbm os argumentos que explicam a auxencia de sua suposta compaixao. Nao temo um ser cruel e castrador. Um dia me perguntei: Quem criou Deus?

Primeiro, um esclarecimento: a definição de Deus não é de um ser que passa a existir. Deus seria um ser eterno, necessário e não-causado. E se existe desde sempre, não existe necessidade de uma causa para ele no estilo “um “ser” (Deus) que surgiu do nada” e “Quem criou Deus?”  como sugeriu nosso amigo. Assim, uma abobrinha já está refutada (mais sobre isso AQUI).

Outro estratagema é o truque Representante do Ateísmo [Link quebrado]. Veja que ele fala “nós”, “o que nos faz”… Como ele fala só sobre ele mesmo, não pelos outros ateus (pois ateu, segundo os neo-ateus, se caracteriza só e somente só pela “descrença” em Deus), ele não pode usar o quantificador dessa forma (atente, pois isso é usualmente usado para fazer self-selling do grupo neo-ateu: “nós pensamos”, “Nós refletimos”, “nós temos pensamento crítico”, “nós olhamos as evidências”, “nós representamos o pensamento científico”, “nós não precisamos do conforto de Deus”, etc).

Finalmente, sobre o truque em si, você vai observá-lo quando o neo-ateu começar a jogar um monte de frases que tenham apenas conteúdo emocional, mas não um suporte racional forte. Aí é só perguntar: “E desde quando seu emocionalismo virou argumento?”

Se ele deseja argumentar, então ele deve construir um raciocínio com etapas, dando justificativas para cada uma. A metralhadora de afirmações puramente emocionais ao vento não serve para NADA em termos argumentativos. Se ele só desejava “desabafar”, certo, ele vai desabafar. Mas isso tem tanta relevância quanto pequenas autobiografias tem em contexto de debate – nenhuma.

É interessante observar que as melhores objeções ao teísmo não tomam forma de argumento, mas de apelo emocional (que é uma forma de falácia). A primeira é o apelo ao ridículo (comparar Deus com algo estranho e categorizar como a mesma coisa), a segunda é o apelo ao orgulho (“Você estará representando a ciência”, etc) e a terceira é o apelo ao desconforto emocional (“Religião causa guerras”, “Deus não tem compaixão”, etc).

Naturalmente, isso não passa por um crivo argumentativo. E a melhor forma de ver isso é que se essa fosse uma forma correta de argumentação, então tanto o ateísmo quanto o teísmo seriam verdadeiros. Basta um argumento teísta ser construído no mesmo sentido emocional dos argumentos anteriores. Por exemplo, o argumento da morte humana: “Mas você acha que tudo vai acabar para todo homem, sem mais nem menos? Que o homem morre e que não há nenhum Deus? Que o homem, que seria a mais desgraçada das criaturas, chega ao túmulo apenas dormir o sono eterno? Todas nossas amizades, todas as nossas lutas, todas as coisas que julgamos ser ações boas e nos sacrificamos por elas… Tudo isso foi tudo em vão? Que o bom e o mau tem o mesmo fim? Que o mundo não passa do palco para a auto-destruição e decepção dos sentimentos mais nobres? Se o ateísmo for verdadeiro, então isso é verdade. Mas isso não pode ser verdade. Portanto, Deus existe!”

Claramente, o raciocínio que apresentei acima não prova nada. Ele está baseado no desconforto subjetivo da pessoa em questão, mas daí não segue logicamente que o mundo deve se ajustar ao seu subjetivismo. E o mesmo vale para o neo-ateu. As coisas simplesmente não funcionam assim.  Os argumentos emocionais só tem o valor retórico e de influência psicológica, parando por aí.

O engraçado que em certas questões, como o Problema do Mal (e essa técnica do ateu dramático é bastante aplicada no Problema do Mal), você pode encontrar neo-ateus que admitam que é possível que Deus tenha razões para permitir o mal. Mas eles vão se sentir incomodados ou “impactados” com o Mal, então tentam avançar o argumento por aí, fazendo incomodações emocionais. Mas como escreveu meu amigo Paulo Junio do Teismo.net em texto ainda não publicado:

As pessoas podem se sentir mal com esse problema, podem se sentir mal por terem a impressão de Deus ser um negligente, ou algo do tipo, mas esse ‘sentir mal’ das pessoas não torna o problema do mal nem mais lógico nem mais racional. Apenas dá outras impressões sentimentais, sem nenhum resultado lógico.

E é exatamente isso.

Fim de papo.

Essa é só uma maneira de fazer um parangolé dramático. Se isso acontecer, você já está alerta para o fato de que o apelo emocional não é uma boa base argumentativa.

Aí é só apontar e deixar claro isso para todos.

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