Um poço de estupidez: Cristina Rad e seu show de ferocidade – Parte II

Já começamos a aplicar o ceticismo no caso contra o teísmo da enfant terrible Cristina Rad no post anterior. Prosseguimos aqui – a quem possa interessar – nas  perguntas proferidas pela nossa revoltada amiga no seu pequeno show de ferocidade:Pergunta N° 3: Deus estava certo em castigar Adão e Eva?

Objeção 1. Ao que parece, Deus não estava certo em julgar Adão e Eva. Deus ordenou que Adão e Eva não comessem o fruto do conhecimento do Bem e do Mal. Depois, Deus teria enviado uma serpente para tentar Eva, que comeu o fruto , passando a saber o que era certo e errado. Ora, se eles não sabiam antes de comer o fruto o que era certo e errado, então Deus não poderia castigá-los por alguma ação feita antes disso, pois ainda não tinham responsabilidade sobre os seus atos.

Eu respondo. Primeiro, ao contrário do que afirma Rad, não pude encontrar nenhum versículo dizendo que a serpente foi enviada por Deus. Em seguida, ainda é possível pensar que ambos não eram incapazes de qualquer julgamento de moralidade, mas sim tinham um tipo específico de inocência quanto ao Bem e ao Mal – por exemplo, não se envergonhar por estar nu, dentre outras particularidades – possuindo algum conhecimento mínimo, como o da Lei Natural (ver pergunta 4, resposta) sobre o que deviam ou não fazer. Caso contrário, Adão poderia matar, violentar, mentir e blasfemar no seu estado de inocência sem nunca poder ser repreendido. Nesse sentido, homem e mulher quebraram as regras impostas por esse conhecimento mínimo usando do seu livre-arbítrio. Ainda, poder-se-ia argumentar que não foi uma punição, pois estavam avisados do que aconteceria por uma relação causal determinada; tal qual avisar alguém para que não tome um veneno mortal. Se mesmo assim a pessoa toma, então ela mesma se aplicou a punição da morte e não quem avisou da causalidade presente no produto químico. Por fim, está escrito “E criou Deus o homem à sua imagem: à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gn 1:28) A principal característica relacionada à imagem e semelhança é a da natureza intelectiva do homem; ora, através das faculdades cognitivas, mesmo sem que pudessem fazer um julgamento moral, homem e mulher poderiam concluir que era melhor confiar na palavra do Deus perfeito; portanto, também poderíamos dizer que tinham responsabilidade sobre seus atos.

Pergunta Nº 4: Qual o destino dos que nunca ouviram falar da religião?

Problema. Ao que parece, não há uma boa saída para o problema dos que nunca ouviram falar da religião. No ano passado, foi encontrada uma tribo que nunca havia tido contato com a civilização. Portanto, não tinham contato com a religião. Haveria duas possibilidades: ou eles iriam para o inferno, por nunca ter ouvido, ou seriam julgados por seus atos ocorridos nessa vida.

Objeção 1. Um Deus justo não pode condenar alguém ao Inferno por não cumprir regras que desconhece. Portanto, essa não é uma boa saída.

Objeção 2. Se essas pessoas fossem julgadas por seus atos, ensinar a religião levaria mais pessoas para o Inferno. Pois se você fosse uma pessoa boa e não conhece Deus, você irá para o Céu. Mas se você é uma pessoa boa e rejeita Deus, irá para o Inferno. Portanto, quanto mais se fala de Deus, mais pessoas vão para o Inferno.

Eu respondo. Essa é uma questão de coerência interna do Cristianismo. Existe, dentro da teologia, uma doutrina chamada ignorância infalível. Aqueles que absolutamente não podem conhecer as regras específicas, como seria o caso dessa tribo amazônica, não precisam segui-las. Mas é mentira dizer que Deus os mandaria à danação por isso. A única regra que eles devem cumprir é uma mínima conhecida como Lei Natural, conforme explica Paulo em Romanos. Assim, o homem saberia, mesmo sem entrar em contato com a religião, que não é moralmente correto matar crianças, maltratar velhos ou desrespeitar o próximo, embora o hábito do erro possa deturpá-lo. Logo, Deus não manda ninguém ao Inferno por cumprir regras que desconhecem, pois conhecem, no íntimo, a Lei Natural. Rad falhou de novo.

A segunda sentença (“quanto mais se fala de Deus, mais pessoas vão para o Inferno”) só faria sentido se aceitássemos como bom aquilo que é aceito como tal dentro daquela sociedade (conceito que pode ter sido deturpado), não dentro da perspectiva da Lei Natural. Mesmo dentro do teísmo cristão, onde o homem sabe o mínimo do certo e errado naturalmente, é dito que ele, na maioria dos casos, acaba por preferir o hábito do erro; portanto,  é plausível pensar que quanto mais se fala da religião, mais fácil é convencer alguém a cultivar o hábito da virtude, de onde se segue que mais pessoas se salvariam do Inferno.

Logo, o argumento ateu é falho.

Pergunta N° 5: O Inferno é justo?

Objeção 1. Ao que parece, o Inferno não pode ser justo. Se uma mãe diz para o filho não comer biscoitos, e o filho come, ela não pareceria estar sendo justa decepando suas mãos, vez que ela está dando um castigo permanente para uma decisão que foi finita.

Eu respondo. O raciocínio começa por uma ilustração incorreta. Uma mãe não tem a mesma autoridade sobre seu filho que Deus supostamente tem sobre a humanidade. Um ato de comer um biscoito também não pode ser comparado ao conjunto de pecados cometidos em uma vida inteira, que vão desde várias mentiras ou até vários adultérios ou assassinatos. Portanto, a primeira parte do pensamento de Rad demonstrou ser mais uma forma de emocionar a platéia (ou será que a imagem de uma criança com as mãos decepadas foi escolhida ao acaso?) do que uma analogia construtiva.

Em primeiro lugar, existe a doutrina do Aniquilacionismo. O Inferno é a aniquilação da alma imediatamente após a morte ou após um breve período de pagamento pelos pecados, enquanto o Paraíso é a vida eterna. Se você achar que é inescapável a punição aos ruins e a existência de Deus, então poderia adotar essa doutrina e o problema estaria resolvido.

Mesmo que o Aniquilacionismo estivesse fora de opção, ainda poderia ser logicamente possível o cenário do Inferno. É dito que a maior dor do Inferno é estar separado de Deus – portanto, a punição eterna é essa. Uma pessoa possui a vida inteira para escolher livremente se quer ficar junto a Deus ou separado Dele e, no pós-vida, apenas recebe as conseqüências de sua escolha. É como uma pessoa jovem que sofre de uma doença fatal para qual conhecemos a cura; e ela prefere, livremente, nunca tomar o remédio. Portanto, a morte prematura e definitiva é apenas uma conseqüência de suas escolhas.

Ou ainda: ofensas a um Deus eterno podem ser de uma ordem diferente que ofensas entre humanos.

Conforme comentou o professor Vinícius Pinheiro no seu blog Filosofia e Apologética:

Em primeiro lugar, existe um parâmetro no direito clássico de acordo com o qual o grau e a duração de uma pena são diretamente proporcionais ao nível de dignidade e valor do objeto contra o qual se cometeu o delito. Assassinar um animal de estimação não tem o mesmo valor que matar uma pessoa e por isso requer pena mais leve e de menor duração. Seqüestrar um animal de estimação não tem o mesmo peso que seqüestrar uma pessoa e, por conseguinte, requer punição mais leve e de menor duração. Semelhantemente, ofender o Deus de infinito valor requer uma punição diretamente proporcional: O inferno eterno.

Mesmo que a resposta acima ainda não fosse boa, ainda seria possível argumentar pela possibilidade do Inferno. Como diz William Lane Craig, embora seja verdade que cada pecado mereça apenas uma punição finita, não é verdade que todos os pecados de alguém mereçam apenas uma punição finita. Nós poderíamos concordar que cada pecado individual cometido merece apenas uma punição finita; mas disso não segue que todos os pecados de uma pessoa, tomados como um conjunto, mereçam apenas uma punição finita. Se uma pessoa comete um número infinito de pecados, então o conjunto total desses pecados também merece uma contrapartida infinita. É claro que é impossível alguém cometer um número de pecados, dentro da vida, que mereça uma punição infinita. Mas se esse alguém continuar, livremente, rejeitando e odiando a Deus no pós-vida, então ele continua pecando, em um sentido que o Inferno é um local de auto-perpetuação. Nesse caso, todo pecado possui apenas um número finito de punições; mas como eles se sucedem infinitamente, a punição também. Imagine que um presidiário, condenado por roubo, tráfico e assassinato, continue a cometer delitos sempre que sua pena esteja chegando ao fim; ele será condenado novamente por outro crime, ficando mais tempo e mais tempo, sem nunca sair de lá.

No livro do Apocalipse (Cap. 16), por exemplo, temos uma imagem parecida com essa; todos os condenados continuam odiando e se recusando a aceitar Deus:

8 E o quarto anjo derramou a sua taça sobre o sol, e foi-lhe permitido que abrasasse os homens com fogo.

9 E os homens foram abrasados com grandes calores, e blasfemaram o nome de Deus, que tem poder sobre estas pragas; e não se arrependeram para lhe darem glória.

10 E o quinto anjo derramou a sua taça sobre o trono da besta, e o seu reino se fez tenebroso; e eles mordiam as suas línguas de dor.

11 E por causa das suas dores, e por causa das suas chagas, blasfemaram do Deus do céu; e não se arrependeram das suas obras.

Mais uma vez comenta o professor Vinícius Pinheiro:

Em segundo lugar o inferno não é descrito na religião cristã como um lugar onde as pessoas são torturadas por carrascos contra sua própria vontade. O inferno é um lugar de tormento auto-infligido que resulta da incapacidade humana de se livrar de seus vícios e costumes autodestrutivos. Do mesmo modo que um viciado em drogas sofre tremendamente com o seu vício, mas, no entanto, não consegue abandoná-lo, assim o cidadão do inferno eterno estará sofrendo muito, mas não desejará abandonar o próprio estilo de vida auto-destrutivo.

Portanto, há vários cenários que permitem a conciliação de um Inferno justo e a existência de Deus. Mais uma vez a objeção de Cristina falhou.

Conclusão

O caso de Cristina Rad contra o teísmo falhou miseravelmente. Não só uma pergunta, conforme seu desafio “amedrontador”, como todas as cinco foram respondidas. Como eu já havia avisado: toda vez que ouvir um discurso neo-ateu, aplique doses de ceticismo. Dificilmente sobrará alguma coisa de pé para contar história.

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