Um poço de estupidez: Cristina Rad e seu show de ferocidade – Parte I

Em um dos seus podcasts mais recentes, Olavo de Carvalho falou de uma estratégia usada por líderes políticos e oradores em todo lugar.Toda vez que o sujeito não tem força de resposta, FINGE uma suposta autoridade (que não tem) e mostra garras, para tentar colocar o adversário em posição de defesa, sendo que ele deveria estar dando explicações.

A idéia do termo “show de ferocidade” vem de um post de Luciano Ayan:

A mania atual que alguns cristãos tem de ficar “se defendendo” é baseado em um problema de PERCEPÇÃO do contexto da guerra intelectual como ela ocorre atualmente.

O que acontece, então, é que o Christopher Hitchens e sua turminha encenam como se fossem os portadores do julgamento na questão, e que há um réu já definido: o cristianismo.

A isso dou o nome de encenação de ferocidade.

Lembro disso por causa de uma tira do Garfield. É assim: o gato fanfarrão (e divertido, nas tiras) caminha pela rua, e aparece um baita de um cachorro na frente dele. Garfield coloca as unhas para fora, faz um som feroz, e o cachorro foge com medo. Garfield olha para o leitor e diz: “Um dia esse show de ferocidade irá fracassar”.

O duro é quando o show de ferocidade não fracassa! Ao menos para gente como Wilson.

(clique no link acima para ler todo o post)

Assim, o gato, que não tem força alguma, faz uma cara feia e o inimigo se borra todo e falha em responder.

Esse é o PRINCIPAL expediente da romena Cristina Rad. No vídeo, ela já começa deixando claro que cristão são estúpidos, em outro ela ela chama um argumentador de víbora mentirosa e assim vai. E o pior: não valida quase nada das suas assertivas.

Esses caras demonstram uma ARROGÂNCIA e se elevam a uma posição que eles não estão. E como as pessoas estão cada vez mais covardes, ninguém tem coragem para desmascará-los e colocá-los no seu devido lugar.

Será que se a postura dela fosse “Bem, quero aprender, vamos ver isso melhor? Algum cristão conhece uma boa resposta para essas dúvidas?” o sucesso do vídeo teria sido o mesmo?

É plausível pensar que não. E, assim, a PROPAGANDA não teria tido o mesmo efeito.

Alias, se o debate intelectual entre ateus e teístas tem que se operar por base no que diz Cristina Rad, Richard Dawkins e Cristopher Hitchens, os teístas deveriam ficar felizes por estar do mesmo lado que Tomás de Aquino, Agostinho, Alvin Plantinga, William Lane Craig, Richard Swinburne e outros. Não há motivo para tanta preocupação.

Portanto, já que ela fez seu show, vou demonstrar aqui como é possível desmontá-la facilmente apenas no aspecto lógico.

Por questões de organização, não farei a transcrição ipsis literis da fala dela. Se alguém achar que modifiquei algo, está livre para se manifestar.

Pergunta N° 1: É possível ser feliz no Céu?

Objeção 1. Ao que parece, não é possível ser feliz no Céu. Todas as pessoas (ou quase todas) possuem laços familiares ou de amizade. Ora, nem todos esses com quem as pessoas que vão para o Paraíso possuem laços vão para o Céu. Logo, não será possível ser feliz no Céu, pois os laços que possuímos com essas pessoas nos deixarão preocupados com elas.

Eu respondo. Para esse raciocínio ser válido, precisaríamos aceitar uma CAMINHÃO de premissas ocultas, Na filosofia, isso é conhecido como entimema e, em certos casos, pode configurar uma desonestidade intelectual. Não raro ateus usam desse expediente, como mostrei no post O Argumento do Conhecimento Moral do Ateísmo [Link quebrado].

Para o ateu que defende esse argumento provar que não existe a possibilidade de alguém ser feliz no Céu, ela deverá demonstrar que todas as premissas ocultas devemnecessariamente ser verdadeiras. Entre elas, estão:

  • a idéia de que almas que estão no Céu sabem as que estão no Inferno;
  • possuem funcionamento sensorial igual ao ser humano físico;
  • continuam com os laços convencionais (amizade, família) após a morte;
  • são incapazes de entender e aceitar o destino dos outros;

Vamos aplicar um pouco de ceticismo no discurso de Rad:

(1) Ela assumiu que uma alma que está no Céu possui a capacidade de reconhecer aquelas que estão no Céu e também estão no Inferno. A partir de que ela conclui isso?

(2) Admitindo que as almas possuam tal capacidade, quem garante que elas tem funcionamento sensorial da mesma maneira que o homem físico? Isto é, uma alma na eternidade teria capacidade se sentir empatia, sofrer e se relacionar de forma complexa ou a passagem seria para condições imutáveis? Ex. I- Uma alma sem arrependimentos estaria condenada apenas a relembrar eternamente os seus erros. II – Uma alma no Céu possuiria eternamente apenas sentimentos de felicidade, sem ser capaz de sofrer

(3) Admitindo que elas funcionam de maneira complexa, quem garante que os laços terrenos ainda são mantidos? E se, após a passagem, os laços familiares, que são meramente convenções orgânicas,por exemplo, não existem mais, apenas existindo um laço, que é entre os homens e Deus?

(4) Admitindo que os laços são mantidos, quem disse que, diante da visão de Deus (perfeito), a pessoa simplesmente não é capaz de entender os seus desígnios (de justiça e misericórdia) e aceitar que cada um escolhe seu destino?

Enquanto algum desses cenários for minimamente possível, então a idéia da felicidade no Céu também continua sendo. Rad falhou em provar seu raciocínios ocultos.

Pergunta N° 2: Deus é onisciente?

Objeção 1. Ao que parece, Deus não pode ser onisciente, pois muitas vezes ele demonstrou não saber o que iria acontecer. Deus teria dito à Abraão que escutou o clamor de Sodoma e Gomorra e que desceria na Terra para ver se isso era verdade.

Objeção 2. O Alcorão diria que Deus testou a fé de alguns judeus. Os judeus falharam no teste. Ora, se Deus é onisciente, já saberia que os judeus iriam falhar e, deste modo, não precisaria ter feito teste algum.

Eu respondo. Mesmo que houvesse algum erro (e, vamos ver, não há), esses detalhes não provariam, de maneira nenhuma, que Deus não existe ou que Jesus não era quem disse ser. Provariam, no máximo, que a Bíblia e o Corão não são inerrantes. Partir de um pequeno erro ou contradição, coisas quase irrelevantes, para concluir que TODA a doutrina é falsa é o estratagema erístico da Ampliação Indevida. Cristina ainda fica devendo uma objeção melhor ao teísmo.

Resposta à objeção 1. As ações de Deus e os significados de eventos na Bíblia, muitas vezes, estão descritos por um certo tipo de paralelo. Assim como o poeta usa metáforas para produzir uma representação, o escritor da Bíblia pode usar metáforas por necessidade e utilidade para ajudar no conhecimento das suas verdades. Já vimos aqui no blog que Genesis era, desde muito antigamente, interpretado como um livro poético ou alegórico. Exemplo: o fato de Eva ter sido feita de a partir do homem não deve ser entendido literalmente, mas (dentro da coerência interna) como indicativo da revelação do sacramento do casamento (pois eles são, na origem, uma só carne e etc). No caso de Abraão, aquilo visto acima foi utilizado como necessidade poética para o desenrolar da história. Deus se revela para Abraão e diz que observará e julgará o povo de Sodoma. O homem intercede por aquele povo e pergunta se, porventura, Deus achando 50 justos na sua busca, destruiria todo local. Deus diz que, por amor aos justos, não faria isso. Abraão continuando perguntando para Deus se o local seria destruído se houvessem 45, 40, 30, 20, 10 justos; e Deus sempre responde que por amor ao justos, não destruiria o local . Até que Abraão se resigna e entende a  lição: não faria injustiça o Juiz de toda Terra. Essa passagem, colocada logo no início da Bíblia, serve como revelação para o homem de um dos atributos de Deus – o da misecórdia divina.

Resposta à objeção 2. Não conheço tal passagem do Alcorão e, por isso, só posso comentar a idéia de forma genérica; dentro de uma perspectiva molinista (defendida por filósofos como Plantinga, atualmente) não há dificuldades para entender a passagem. Quando Deus faz testes aos humanos, não é para adicionar um conhecimento para si; e sim para que o homem, dotado de livre-arbítrio, escolha se quer juntar-se ao bem ou não por sua própria vontade. Cristina continua sem um bom caso contra o teísmo.

(*) aos que reclaramarem que o título do post é ofensivo, ele nada mais é do que uma referência a um outro vídeo de Cristina, chamado “A Origem da Estupidez”

(**) como o texto estava ficando muito grande, ele será dividido em duas partes

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