Técnica: Perfeito não pode criar o imperfeito

Deus é perfeito? Sua criação é imperfeita? Esse é o tema da técnica de hoje, que é um truque lógico. Embora a idéia de “Deus” como um ser perfeito venha desde Aristóteles, penso que o primeiro a propor uma contradição entre a criação e o criador nesses termos específicos veio muito tempo depois do filósofo grego.  Argumento esse que é muito repetido hoje por neo-ateus em debates. Basicamente, ele vai na seguinte linha: “Se Deus é perfeito, então não poderia ter criados seres humanos imperfeitos”.A reclamação do neo-ateu também pode vir das seguintes maneiras (que são mais comuns): “Pode uma máquina dita perfeitíssima produzir produtos imperfeitos?” ou “Um ser perfeito NÃO pode produzir seres imperfeitos. Portanto Deus não existe”.

A primeira correção que temos que fazer é a seguinte: ao contrário de uma máquina, Deus é descrito como um ser pessoal. Isto é: ele age com vontade e com uma causa final (ou intencionalidade) em suas  ações. A máquina funciona na situação oposta. Ela é simplesmente ligada e obedece a um padrão determinado no seu design. (Sem falar que é até mesmo difícil conceber uma máquina – que é, por definição, parte do grupo dos objetos provenientes da tecnologia humana – como perfeita, mas entendo que era só uma analogia).

O que faz essa diferença tão importante para a análise dessa técnica? Bem, admitindo que os seres humanos são “imperfeitos”, a intencionalidade da produção faz toda a diferença. Assim como na versão do Problema do Mal, para derrubar o problema lógico do “Perfeito contra o Imperfeito”, basta adicionar uma terceira premissa ao argumento original: “O Perfeito pode produzir o Imperfeito, desde que tenha razões morais suficientes para fazer isso” (o que não se aplicaria, é óbvio, a seres impessoais que agem sem intencionalidade e que não podem ter razão moral alguma em suas ações).

Na verdade, só essa observação já serve para acabar com o estratagema. A mera possibilidade de uma terceira via já acaba com a necessidade lógica (“NÃO pode”) de uma contradição e voltamos a uma situação onde o perfeito poderia produzir o imperfeito. É difícil avaliar qual seria essa razão com certeza, pois estamos em uma situação epistêmica bem diferente daquela que seria experimentada por Deus. Enquanto ele tem uma visão geral da história, nós temos uma visão limitada a nossa finitude espaço-temporal. Como disse Alvin Plantinga, sendo nós seres desse tipo (limitados), seria absurdo achar que “Toda vez que Deus possuir um motivo P para fazer algo, nós obrigatoriamente teríamos que conhecer P”. Não é o caso, justamente pela nossa limitação.

Dito isso, nós podemos oferecer algumas razões para que isso aconteça? É claro que sim.

Se adotarmos uma visão essencialista dos conceitos morais (ou seja, os valores morais fazem PARTE da natureza de Deus e ele deve agir conforme eles – ver mais aqui e aqui), então o mais moral para Deus poderia ser apenas criar um mundo onde as criaturas tivessem livre-arbítrio – o que implica na capacidade de fazer e tomar decisões erradas, incluindo tudo que possa ser considerado uma “imperfeição” e o caminho do mal. Criar seres humanos sem um verdadeiro livre-arbítrio, que acaba se relacionando com a imperfeição, não seria moral para Deus e por isso eles nos criou “imperfeitos”.

Poderíamos complementar, ainda, dizendo que é possível que seja o caso de que Deus criou os seres humanos com o objetivo de fazer o maior número possível deles vir livremente até ele. E os seres humanos foram criados com o grau de imperfeição certo para um produzir um estado terreno maximamente balanceado com o maior número de pessoas livremente salvas possível e o menor número de pessoas livremente perdidas possível. Se Ele tem que nos dar livre-arbítrio para realmente fazer uma escolha entre ficar com Ele ou não, pode ser que a nossa imperfeição seja uma maneira que Deus tenha utilizado para que o maior número de pessoas livremente o aceite. E, assim, a “imperfeição” seria justificável.

Os dois motivos podem ser considerados racionais e, no mínimo, coerentes com a teologia cristã mais clássica. Considerando-os, é possível pensar que a objeção original já foi refutada.

Finalizando, algo muito importante: mesmo se não fossemos capaz de adicionar a possibilidade de uma terceira via (ou de dizer quais poderiam ser elas) para vencer o “problema lógico” do ser perfeito, isso significaria que teríamos que simplesmente jogar fora todo o caso filosófico a favor do teísmo fora? Não. No máximo, teríamos que tirar a definição de “perfeito” conforme a entendemos. Mas nem por isso daí saltamos para a inexistência de um ser pessoal, transcendental e necessário como vário dos outros argumentos indicam.

Conclusão

Parece-me que, às vezes, muitas pessoas adotam uma posição de extrema cautela mesmo frente a vários e vários  argumentos que possuem defesas fortes e sólidas para o teísmo (como o da Causa Primária, o Cosmológico, o da Contingência, o do Fine Tuning, o Argumento Moral, o Argumento Ontológico, etc) do tipo: “Realmente não sei como refutar, mas não deveríamos tomar uma decisão só por termos todos esses argumentos”. Mas quando se é encontrada uma – talvez – contradição em um atributo periférico de Deus, essa mesma pessoa já pula da mesa e grita definitivamente: “Aha! Deus não existe!”

De qualquer forma, a idéia de que a suposta imperfeição da criação possa possuir um motivo maior (seja na própria essência divina, seja um objetivo futuro que dependa dele ou até mesmo outro motivo que não fomos capazes de citar ainda) derruba esse truque lógico.

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