Porque deveríamos usar ateus para estudar e criar um guia de falácias

Uma das coisas que mais poderíamos lamentar, ainda hoje, é a ausência de um guia de falácias orientado para o desmascaramento do neo-ateísmo.Digo isso porque já vi vários sites de ateus e neo-ateus com guias de falácias. Praticamente todo site desse tipo tem um.

E esse ponto, na guerra em rede entre teísta e neo-ateus, é um atraso gigantesco. Basicamente, todo neo-ateu que entra em sites ateus para criar “conhecimento anti-teísta” acaba se armando com alguma informação, mesmo que por cima, de falácias.

Se eles fazem isso, por que não responder na mesma moeda?

Principalmente agora, com autores neo-ateus e seus seguidores, que são um cardápio cheio para esse tipo de estudo.

Podemos não gostar do nível intelectual dos neo-ateus, mas temos que admitir uma coisa: eles são rápidos. Cada vez que terminamos de refutar uma bobagem, vem outras quatro em seguida.

E dessa rapidez em divulgar bobagens, podemos tirar proveito fazendo do limão uma limonada: ao expô-las, mostramos a grande coerência interna que esses militantes possuem.

Por exemplo, poderíamos fazer um verbete sobre o Falso Dilema da seguinte maneira:

  • Falso Dilema

Essa falácia ocorre quando o interlocutor apresenta um argumento baseado em uma consequência falsa ou escolha forçada; se as opções não forem mutuamente excludentes, ou se ainda for possível uma terceira saída para o problema, dizemos que o interlocutor incorreu nesse erro lógico.

Um exemplo pode ser conferido a seguir:

Quando seu filho está com pneumonia, você pode levá-lo ao médico ou pode ficar em casa rezando. (Carl Sagan)

Sagan deixa claro que OU levamos a criança ao médico OU ficamos em casa rezando.

Mas peraí: quem foi que disse que eu não posso levar o meu filho ao médico E rezar também?

Aliás, essa deve ser a atitude mais comum entre os pais religiosos. Fazer o tratamento médico e, ao mesmo tempo, principalmente em casos graves, fazer preces a Deus para que tudo ocorra da melhor maneira. Não há nada de “ou” e “ou” como tentou impingir Sagan. Não se trata de um dilema, pois há mais uma saída que não foi posta na mesa na frase original.

Talvez o ateu diga que se o sujeito “fosse religioso mesmo, não precisaria ir até o médico. Ficaria rezando”.

Mas aí teríamos outra falácia: falácia do espantalho. Segundo os ensinamentos cristãos, Deus não é um call-center (ver aqui). Jesus deixou claro que não devemos ficar tentando Deus. Se Deus nos permite um conhecimento “X” seja usado para cura, não é correto da nossa parte ficar apontando e dizendo “Agora, Deus, você vai fazer isso, agora você vai fazer aquilo e vou jogar os restantes dos conhecimentos fora”. Essa é uma atitude completamente errada segundo a ortodoxia cristã.

A escolha entre “A” e “B”, nesse caso, é forçada. Por isso, Carl Sagan comete a falácia do falso dilema.

Outra falácia comum nos meios ateus que pode se encaixar aqui:

Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil em oração.

Claro que tal observação não tem o mínimo de sentido. Da forma como foi colocada a frase, pode-se interpretar que há alguma divergência entre optar por trabalhar e fazer oração. Mas a pessoa pode trabalhar E rezar, sem prejuízo de uma atividade para outra.

No mundo de hoje, uma pessoa trabalha, em média, umas 8h por dia. Rezar é uma atividade que só leva alguns minutos e que não ocupa o horário que deve ser dedicado a um trabalho, dentro dos limites à saúde humana. E mesmo quando a pessoa vai a um culto ou missa, por exemplo, que são mais longos, normalmente o fazem em final de semanas ou em períodos em que estão fora do ambiente profissional. O ser humano também precisa de lazer, descanso, aprofundamento de auto-consciência, etc, que pode ser conseguido através da oração. O trabalho só serve conseguirmos um fim utilitário e prático determinado (como dinheiro), ao contrário da oração, que serve para estabelecer, principalmente, a relação do indivíduo com Deus.

Esse slogan poderia ser facilmente parodiado como “Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil lendo o livro do Richard Dawkins” ou “Duas mãos trabalhando fazem mais do que mil pregando o neo-ateísmo na internet”.

Enfim, a segunda frase não é possível, pois o trabalho e a oração tratam-se de atividades complementares na vida de uma pessoa e de planos e objetivos diferentes. Ou será que vamos ter que construir campos de concentração para as pessoas trabalharem o tempo todo em que estiverem conscientes, impedindo-as de rezar?

Outro falso dilema é o Dilema de Eutífron; confira aqui.

***

Com esse tipo de verbete, a pessoa não só aprende os erros dos slogans neo-ateus como também aprende os tipos de falácias, conhecimento que o habilitaria a não cair no jogo neo-ateu em outros casos não mencionados, mas que seguissem essa mesma estrutura errada de raciocínio.

É um jogo onde só temos a ganhar.

Talvez alguém diga que “nós temos que ir além da análise de falácias e erísticas”. Correto.

Mas também não podemos ir ALÉM do estágio inicial para pessoas que ainda não o dominam completamente. Primeiro é preciso clarificar as coisas em sua base.

Hoje, na guerra em rede, os inimigos do teísmo não são grupos de filósofos altamente especializados. Nada disso.

O perfil do debatedor médio é de um homem entre 15 e 23 anos, que escreve errado, nunca leu nada de filosofia séria e utiliza, na maior parte do debate, slogans e frases de efeito.

É contra esse tipo de pessoa que temos que armar, primeiro, os debatedores teístas, até que esse tipo de conversa finalmente esteja neutralizada por completo.

Só aí, sim, que poderíamos fazer discussões mais aprofundadas.

E a construção de um Guia de Falácias amplo, completo e direto é um dos primeiros passos que deveriam ser dados nessa direção.

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