Outros truques (resumo) – Parte I

1. Bíblia contra Harry Potter

Esse estratagema consiste em FINGIR que a única demonstração que o teísta tem da existência de Deus são os livros da Bíblia. Dessa forma, o neo-ateu fará uma analogia com algum outro livro (normalmente será ou com Harry Potter ou com o Senhor dos Anéis) dizendo que se a prova dos teístas é a Bíblia, então ele prova que “orcs” ou “bruxos” existem com outros livros (talvez ele diga que “tem fé”, aí é só falar: “E eu com isso? Não estamos aqui para discutir a sua pessoa, mas argumentos”).

O erro dele é ignorar (como de praxe) toda a argumentação filosófica produzida para justificativa teísta. O teísmo (pelo menos o mais sofisticado, que é o que deve ser analisado; caso contrário, caimos na técnica Seleção Interessada de Representantes da Religião [Link quebrado]) justifica-se, primeiro, pelo plano filosófico; depois de discutirmos se Deus existe ou não, aí sim passamos a uma análise da Bíblia, que é feita em plano teológico (onde já aceitamos que Deus existe). Mas não existem, na grande tradição filosófica, argumentos filosóficos para existência de Harry Potter ou de orcs. Por isso a comparação não funciona.

A refutação pode ser assim:

  • NEO-ATEU: Assim como você usa a Bíblia para provar a existência de Deus, eu uso Harry Potter para provar que bruxos existem kkkk
  • REFUTADOR: Mas quando foi que eu disse que a MERA existência da Bíblia era uma prova irrefutável da existência de Deus? Essa sua fraude é uma mistura de espantalho com falácia de inversão de planos. A existência de Deus é definida filosoficamente ANTES da discussão da validade da Bíblia que, por sua vez, é discutida no plano teológico. Por isso, sua crítica dirigida a mim não tem o menor fundamento.

Depois disso, é só mandar pastar.

2. E os dinossauros?

Aqui, o neo-ateu tentará aplicar um combo de outras técnicas, como “Criticismo Bíblico valida o ateísmo” e “Você acredita em mundo de 6.000 anos!” ou ainda até “Se a Bíblia não for toda literal, como saber o que é e o que não é?”. Ele perguntará algo como “E os dinossauros?” referindo-se ao fato de que a Bíblia nunca falou (positivamente) que eles existiam.

Mas, como eu expliquei nos artigos citados acima, a artimanha é trocar a crença em Deus por uma variação do criacionismo bíblico ultra-literal. Como os próprios antigos Pais da Igreja já usavam de interpretações simbólicas, sem se comprometer com o ateísmo e nem mesmo com o deísmo, esvazia-se a reclamação. Como sempre falo, a Bíblia não tem o objetivo de descrever o mundo natural (que é o que a Ciência faz), mas de promover a relação do homem com Deus, assim permitindo simbólicos e outras figuras de linguagem; e mesmo que ela fosse inválida, o Cristianismo ou o Teísmo não estariam comprometidos por isso.

Um exemplo de refutação:

  • NEO-ATEU: E os dinossauros?
  • REFUTADOR: O que tem os dinossauros?
  • NEO-ATEU: Cadê eles na sua gi-biblia, imbecil? Se a Bíblia não os mencionou, como você explica os fósseis hmm? Read your fucking bible, asshole.
  • REFUTADOR: Eu só teria que explicar alguma coisa se eu adotasse um criacionismo ultra-literal. Mas quem disse que a crença em Deus depende dessa visão? Já expliquei que o Genêsis pode ser muito bem apenas uma história simbólica (Você acredita em mundo de 6.000 anos!), o que se encaixa com o objetivo geral que entendemos para o qual a Bíblai serve. Você pode tentar o quanto quiser, mas eu NÃO VOU deixar você aplicar suas FRAUDES intelectuais aqui.

E assim vai.

3. Trocando “pensamento crítico” por “ateísmo”

Essa é uma técnica de self-selling com uma variação bem específica. É semelhante a uma denunciada por Luciano Ayan em “Crenças devem ser justificadas”. O neo-ateu justificará sua militância no ateísmo devido ao fato de que “o ateísmo” provocará mais questionamentos, progresso tecnológico, etc.

Mas quem disse que o ateísmo é algo disso? Ateísmo, segundo os neo-ateus, é apenas a descrença que Deus existe. Não há nenhuma comprovação de que o ateísmo esteja ligado a maior questionamento ou maior pensamento crítico. Na verdade, podemos ver pelos questionamentos dos neo-ateus no dia-a-dia que a popularização do ateísmo tornou-o bastante relaxado filosofica e criticamente. E até a “elite”, como John Shook, demonstra erros básicos de lógica. Mande-o provar que há uma causação entre os dois fatores de forma objetiva.

Se ele quiser falar em países como Noruega e Suécia, o negócio é questionar as fontes (por vezes fraudulentas) e lembrar que correlação não é causação. Outros fatores, como não ter participado de grandes guerras ou tamanho pequeno que facilita o investimento e a fiscalização podem estar mais relacionados a prosperidade, enquanto o ateísmo pode estar mais ligado a influências culturais tal que maior contato do Iluminismo. Essa matéria trata bem disso.

Se ele citar cientistas ou pessoas mais inteligentes como ateus, então, de novo, correlação não é causação. Uma pessoa de maior QI também tem maior tendência a ser mais alfabetizada e, por tabela, doutrinada nas universidades. Essa matéria também traz um bom ponto de vista sobre o tema.

Se, no fim das contas, for só uma crença do neo-ateu, como os debates são voltados para argumentos, ela deve ser desprezada.

Não esquecendo que críticas sociológicas a religião, mesmo que verdadeiras, não validam o ateísmo. Isso é falácia ad consequentiam.

Esse estratagema é uma safadeza pura e simples. Não há como qualificá-lo de outra maneira. E, como sempre, basta denunciá-lo com firmeza.

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