Técnica: Você acredita em um mundo de 6.000 anos!

“Você acredita que o Mundo tem 6.000 anos! Você acredita que o mundo tem 6.000 anos!”. Em vários debates que eu já participei, um neo-ateu tentou usar esse estratagema em momentos de dificuldade (ou a variante “Você acredita em Cobra Falante”, que parte do mesmo princípio). É claro que ele se ferrou, pois foi desafiado a demonstrar que a interpretação era necessariamente literal e não conseguiu. Essa é uma técnica que pode ser usada em dois momentos:

  • Como cortina de fumaça, no momento em que ele perder uma discussão sobre outro ponto qualquer;
  • Como tentativa de falsa consultoria, exigindo que a leitura da Bíblia deva ser feita de modo literal;

A refutação é simples: basta lembrá-lo que o não são todas as informações da Bíblia literais ou referentes a fatos históricos. Na Idade Média, foram definidos os quatro sentidos dos textos da Escritura:

  • Literal, com fatos históricos;
  • Alegóricos ou Metafóricos, que auxiliam na descoberta dos significados ocultos;
  • Moral, orientando os costumes;
  • Anagógico, focando no encaminhamento para as realidades transcendentais;

Se ele perguntar  “como definir o que é metafórico ou não?”, é só lembrar que, a partir desses sentidos, contextualizamos os vários pontos em princípios hermenêuticos, como (a) quem eram os autores (b) qual a intenção e a linguagem que eles usavam na época (c) qual era a época histórica da produção do texto, entre outros. Um exemplo desse tipo de entendimento (contextual)  esse trecho do livro “Para Ler a Bíblia”, publicado no ótimo blog 2% Vanilla:

Na linguagem da Bíblia os números não têm a mesma importância nem o mesmo significado que têm para nós. Quando damos um número, procuramos ser matematicamente exatos; interessa-nos a quantidade real. Para os judeus os números tinham todo um significado simbólico, indicava o sentido dos acontecimentos ou as qualidades das pessoas. A idade dos patriarcas, cem ou mais anos, não era contada em razão dos anos realmente vividos, mas em razão da veneração que mereciam, do quanto eram queridos por Deus. No capítulo quinto do Gênesis encontramos uma série de dez gerações desde Adão até o patriarca Noé. Dez era apenas o número que indicava uma série completa e final. Falando de dez patriarcas, o hagiógrafo queria abarcar todos os acontecimentos, todas as gerações entre Adão e Noé, fossem lá quais e quantos fossem. Não estava, de modo algum, querendo ensinar que de fato tinha havido apenas uma série de dez gerações. De modo semelhante Jesus fala das “dez virgens”; S. Paulo menciona os “dez adversários” que nos tentam separar do Cristo (Rom 8,38s), e os “dez vícios”que nos podem excluir do Reino de Deus (1Cor 6,9s). Os meses do ano são doze. Por isso esse número também significava a perfeição, a totalidade.

Pode-se ver que existe um simbolismo para os números e acontecimentos descritos na Bíblia. Talvez não seja fácil encontrar esses significados, mas a preguiça intelectual não valida automaticamente uma versão literal. Logo, quem diz que a Teoria da Evolução invalida automaticamente a religião/a existência de Deus, ou está sendo ENGANADO ou está MENTINDO.

O neo-ateu também poderá dizer: “Vocês só estão se adaptando ao conhecimento científico”. Mais uma mentira, pois a tradição de diferenciar trechos e versículos biblícos entre metafórico e literal, em Genesis, vem, pelo menos, desde a época de Santo Agostinho. Luciano Ayan escreve sobre isso no post “Simulação de Subserviência Alheia“:

Explica-se: a interpretação metafórica de textos bíblicos é antiquíssima, vindo desde os tempos de Orígenes, Santo Agostinho e demais, que surgiram séculos antes do aflorescimento da ciência, que, como todos sabem, tem o seu princípio como método com Galileu Galilei. Alguns dados:

  • Santo Agostinho, viveu entre 354 d. C. – 430 d.C.
  • Orígenes, viveu entre 185 d.C. — 253 d.C.
  • Galileu Galilei Pisa, viveu entre 1564 d. C. — 1642 d.C.

Segundo matéria escrita por Alister McGrath, a interpretação de Agostinho de Genesis era algo similar a isso:

  • Deus criou o espaço e o tempo juntos a partir do nada; o tempo é uma ordem criada e a atemporalidade é um dos atributos essenciais divinos;
  • Há dois momentos na criação: um momento que é o início da matéria primitiva e o outro do desenvolvimento do potencial contido naquilo que foi criado – o que observamos hoje é diferente do que observariamos no momento da criação;
  • O Criador permitiu que a ordem natural tivesse a capacidade de criar a vida;
  • O processo de desenvolvimento é orientado por leis fundamentais que levam a produção dos tipos e qualidades dos seres;
  • Os vários tipos de vida foram lentamente produzidos durante o tempo, de acordo com a vontade do Criador;

É uma interpretação, no mínimo, respeitável (lembrando que isso foi feito no século IV). O problema dos neo-ateus  é que eles não só EXIGEM que a interpetação seja literal, como também tem a cara de pau de RIDICULARIZAR quem faz propostas de interpretação baseadas em uma análise mais séria e reflexiva desse conhecimento.

Então, como vimos, no passado se aceitava que a interpretação de Genesis podia ser pelo sentido metafórico. E o que dizem os apologistas mais famosos de hoje? Será que há alguma unamidade que a interpretação correta deva ser a literal? Claro que não. Podemos exemplificar com um vídeo do Doutor em Filosofia William Lane Craig, sem dúvida um dos principais expoentes da apolegética cristã dos nossos dias:

Então, para dizer que a Bíblia NECESSARIAMENTE defende em um mundo de 6.000 anos, deve-se:

  • Fazer uma leitura literal, baseada no entendimento próximo de uma criança de 8 anos;
  • Ignorar toda tentativa de hermenêutica e exegese a partir dos conhecimentos contextuais;
  • Ignorar toda teologia e tradição de interpretação bíblica, dos apologistas de hoje e de ontem;

Será que isso é o mesmo correto a ser feito?

Conclusão

Essa é uma técnica de pseudo-consultoria ateísta. Para derrubá-la, é fácil: diga que Genesis não precisa ser neo-ateíinterpretado como história factual, podendo ser visto como uma metáfora aberta a várias interpretações (como a de Agostinho, vista acima). Como muitos deles compraram a infame idéia de que “Darwin matou Deus” (mentira deslavada), o resultado poderá ser um choque e uma desorientação no debate. Explique até ele entender que ele está refutando uma versão própria, não a dos teólogos.

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