Técnica: Todos que discordam de vocês são rotulados de neo-ateus

Uma variação dos antigos estratagemas “Onde fica a Liberdade de Expressão?” e “Não sou neo-ateu, então não me critique [Link quebrado]”,  nessa técnica o neo-ateu tentará aplicar a intimidação de que “todos que discordam de você são chamados de neo-ateus” como se o uso do termo não descrevesse um estado real das coisas, mas apenas um uso para “rotular” os outros e mantê-los calados sem criticar a religião. A reclamação pode ocorrer dessa maneira:

  • FORISTA: “É o caso do golpe comum dos religiosos para dizerem que não carregam uma inquisição anti-atéia e sim uma opinião imparcial: a distinção fraudulenta entre “ateus” e “neo-ateus”. Basicamente o ateu que eles fingem respeitar é o ateu manso (ou covarde): aquele que “guarda suas opinições só para si” e “respeita a religião”. O ateísmo somente é inofensivo enquanto o ateu fica calado. Falou em favor da não-crença, já é neo-ateu.”

Claro que se trata de um chororô que pode ser desmontado se feito em meio a um debate. Vamos lá.

Primeiro: o novo ateísmo é um movimento que existe (ver aqui [Link quebrado]) e não foi criado por nenhum teísta. Portanto, se a reclamação focar nesse ponto, já temos a refutação.

Segundo: o novo ateísmo difere da versão do ateísmo tradicional mas com um “boost” gerado pela adoção da MENTALIDADE REVOLUCIONÁRIA. Se o ateísmo tradicional já criticava o teísmo ou se haviam reservas quanto à religião, o neo-ateísmo modificou para uma radicalidade muito maior para atingir o “outro mundo” sem religiões (como diz o site Neo-Ateus.com [Link quebrado], cujo subtítulo é “Por um mundo sem religiões”: “Os neo-ateus se diferenciam dos ateus por serem mais radicalmente anti-religiosos: colocam em xeque a existência de divindades e acreditam em um mundo melhor sem crenças.”) Relembrando as principais característica da mentalidade revolucionária (há umas poucas outras, mas vamos deixá-las de lado por enquanto):

  • (1) promessa de um futuro utópico, inexorável;
  • (2) Criação da idéia que ele só virá com a derrota de um inimigo perigoso;
  • (3) ausência completa de julgamento moral para os atos do grupo que defende essa idéia, pois ela é tão bela que os fins justificam os meios;
  • (4) sensação de ser um agente da luta por esse futuro;

Esses itens batem perfeitamente com a minha diferenciação de ateu de neo-ateu em um artigo mais antigo.

O item (1) é claríssimo. Por trás de toda militância neo-atéia está a idéia de transformação da sociedade pela eliminação da religião, seja na esfera pública, seja na esfera privada. Só assim o homem pode ser “livre de verdade” (Dawkins) e não raro neo-ateus na internet dizem algo no sentido de que sem a religião viveríamos nunca era “científica” ou “avançada”. Alguns até classificam a religião como “a raiz de todo o mal no mundo”.

O item (2) também não comporta discussões. Basicamente todos os livros da “unholy trinity” dos neo-ateus vem com milhões de críticas quanto ao perigo da religião. Christopher Hitchens, por exemplo, deixa claro que a religião não só é ruim, como é uma AMEAÇA para espécie humana em seu livro Deus não é Grande:

Visto que a religião tem provado que ela é unicamente delinquente… nós podemos concluir que… a religião não é apenas amoral, mas também imoral. A religião envenena tudo. Além de ser uma ameaça para a civilização, ela é uma ameaça para a sobrevivência da própria espécie humana. (pág. 10 e 20, God Is Not Great: How Religion Poisons Evertything, traduzido por mim do inglês)

Já (3) também está presente. Para derrubar a religião, não se deve sequer respeitar os religiosos; Sam Harris pede que nós sejamos ridicularizados publicamente para sermos excluídos das relações de poder. Vamos lembrar, aqui, de sua entrevista ao site Truthdig:

Então, ridicularização pública é um princípio. Uma vez que você deixa de lado o tabu que é criticar a fé e exige que as pessoas comecem a falar com sentido, então a capacidade de fazer as certezas religiosas parecerem estúpidas, fará nós começarmos a rir na cara das pessoas que acreditam aquilo que Tom DeLays, que Pat Robersons do mundo acreditam. Nós vamos rir deles de uma maneira que será sinônimo de excluí-los do nossos salões do poder.

E (4) é um axioma auto-evidente para qualquer ação de militância. Se eu estou militando em prol de uma causa, então é óbvio que terei a sensação de estar ajudando a causa de alguma maneira. Então, quando alguém começa um site para militar contra a religião, por exemplo, necessariamente deve sentir que está participando na luta por esse furuto.

E é essa mistura que DEFINE o que é o neo-ateísmo.

Se alguém fizer objeções puramente filosóficas ou críticas sem adoção do padrão da mentalidade revolucionária, então não é neo-ateu, como John Gray, Arthur, Quentin Smith, etc, não são. O mesmo se diz para dos ateus que estão debatendo conosco no fórum do Teismo.net [Link quebrado]. Ninguém ali merece a pecha de neo-ateu e não são chamados assim.

Então, basta conferir algumas coisas para definir se a pessoa merecia ser rotulada de neo-ateu basta que ele entre em uma dessas opções abaixo:

  • (1) Se promete um futuro utópico, baseado na eliminação da religião/dos religiosos, é neo-ateu;
  • (2) Se cria a idéia de há uma dicotomia do tipo “Eu sou racional, religiosos são ignorantes”, “Eu acredito em evidências, religiosos acreditam por fé”, “Ateus promovem progresso, religiosos são obscurantistas e atrasados”, também é neo-ateu;
  • (3) Se não apresenta o mínimo respeito pela religião ou pelos religiosos, de novo podemos chamá-lo de neo-ateu ;
  • (4) Se utiliza com FREQUÊNCIA as objeções tratadas aqui (principalmente as que são focadas no escárnio), é neo-ateu;
  • (5) Se puxa o saco e trata como sumidades intelectuais Harris, Hitchens, Dawkins ou Dennett, também são grandes as chances de ser neo-ateu;

Uma refutação de um diálogo:

  • NEO-ATEU: Sou ateu, mas apenas porque nenhuma religião jamais me convenceu.
  • REFUTADOR: Certo…
  • NEO-ATEU: Essa é a nossa diferença: eu acredito com base nas evidências e você acredita por fé. Quando todas as pessoas forem como eu, finalmente a humanidade poderá viver em paz e atingir o progresso.
  • REFUTADOR: Espera aí: você pode provar que você toma mais decisões do que eu baseado em evidências? Ou é somente self-selling? Esse discurso de humanidade emancipada parece coisa típica do neo-ateísmo de Dawkins e cia.
  • NEO-ATEU: Eu nem gosto de Dawkins, virei ateu muito antes de saber quem era Dawkins. Mas acho o trabalho dele importante simplesmente para calar a boca da crentelhada que se ilude com a vida eterna SOMENTE por que está ESCRITO numa porra de um livro “sagrado”. Você são assim mesmo: qualquer um que discorde da sua crença é neo-ateu. Patético.
  • REFUTADOR: Você é mentiroso. Não é qualquer um que discorde, tanto que existem vários ateus que criticam o Cristianismo ou o teísmo, como Quentin Smith, e não são chamados de neo-ateus. E o mesmo vale para os debates. Há parâmetros objetivos para verificar se o comportamento de alguém é de neo-ateu e você se encaixa PERFEITAMENTE na descrição.

E assim vai. Enfim, há uma maneira objetiva de verificar se chamar o outro de neo-ateu ou não é válido e  a reclamação falha por isso.

Conclusão

Essa é uma técnica que mistura vitimismo e intimidação. Mas não funciona desde que possamos clarear as definições e saber se o oponente é neo-ateu ou não de forma direta.

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