Técnica: Seja ateu, pois a religião irá acabar

Essa é uma técnica que mistura, normalmente, um disfarce científico com uma tentativa de intimidação. O neo-ateu tentará dar a entender que, em breve, a religião irá ser exterminada e que, portanto, o único caminho lógico é ser ateu. O forista pode agir dessa maneira:

  • FORISTA: Quanto mais o conhecimento avança, mais extraordinária fica a alegação de que Deus existe. Em breve, não existirão mais lacunas para Deus preencher. A sociedade já percebeu os males da religião e a secularização não irá parar até ficar completa. Podemos perceber isso todos os dias, pois a religião está cada vez mais fraca. Em breve, ela não irá mais existir. É inevitável o domínio do ateísmo. Só há duas opções: virar ateu ou continuar com suas crenças da idade do Bronze. Não é preciso dizer qual a correta.

Mas devemos nos perguntar: essas informações são verdadeiras? E se forem, no que implicam na inexistência de Deus?

Essa é uma das técnicas mais pífias, pois sequer chega a constituir um argumento. Trata-se apenas da aplicação de uma técnica de convencimento psicológico chamada “Apelo Irresistível” (conforme descreveu Luciano Ayan). O objetivo do interlocutor é fingir que existem diferentes grupos em disputa e que a vitória de um deles é inevitável. Na verdade, essa é uma velha regra aplicada na vida política. Cria-se a imagem de que existe um grupo que representa os fortes e os vencedores para que, então, aquele se sente fraco se limite a aderi-lo ou parasitá-lo. Assim, acaba-se com a oposição ideológica.

Por isso pesquisas eleitorais são tão importantes para políticos. Se eles tiverem uma vantagem que dê a impressão de ser irreversível, o outro lado se intimida e até desiste, não raro com seus eleitores bandeando para o outro lado. Talvez você até tenha ouvido algo do tipo “Eu não ia votar na Dilma, mas como ela vai ganhar mesmo…” (se quiser saber mais sobre esse tema, pesquise sobre “Espiral do Silêncio”).

Esse processo de convencimento psicológico é completado com o uso de slogans e frases de efeito que dividem o lado que vai vencer entre os “racionais” e “fortes” (podendo ser coisas do tipo, “No final, nós, da ciência, vamos vencer”) ou entre “bons” e “maus” (do tipo “Pessoas boas fazem coisas boas. Pessoas más fazem coisas más. Mas para pessoas boas fazerem coisas ruins é preciso religião”). Assim, o frenesi é completo e a platéia neo-ateísta comemora como um gol em final de campeonato.

Mas digamos que seja verdade que o mundo inteiro vá ficar secular. Como falei: no que isso implicaria na inexistência de Deus, por exemplo?

Somente nessa pequena idéia é possível encontrar, no mínimo 3 falácias: ad populum(pois o fato da maioria da população não acreditar em algo não faz esse algo ser errado), ad antiquitatem/ad novitatem (virar ateu por ser a “novidade” a e a crença em Deus ou a crença religiosa ser abandonada por ser tão antiga quanto a Idade do Bronze – sendo que isso nem vale para todas as crenças; o Cristianismo, por exemplo, tem raízes antigas, mas essa religião propriamente dita desenvolveu-se séculos depois da Idade do Bronze) e até uma espécie de ad baculum (pois fica a impressão que se o sujeito não for ateu, será um “excluído” da “nova” sociedade).

Simples: uma constatação sociológica não é uma prova da inexistência de Deus, que deve ser discutida no nível lógico. Portanto, o único motivo para um sujeito considerar esse um motivo parar ser ateu é a admissão de ser um maria-vai-com-as-outras. E é até melhor que um sujeito que faz uma propaganda desse jeito não seja cristão, pois vai saber se ele não estaria cometendo outros erros lógicos fazendo propaganda a favor do Cristianismo se fosse partidário dessa religião? É possível e seria mais um “tiro no pé”.

Sobre as outras duas alegações de que “o conhecimento está deixando menos lacunas para Deus preencher” e “a secularização não irá parar até ficar completa” também devem ser questionadas ceticamente.

O conhecimento e os avanços estão “sufocando” Deus? Nem de longe isso é verdade. Os estudos, principalmente os de cosmologia, FORTALECERAM os argumentos a favor da existência divina (talvez ele tente a aplicação da técnica “Você acredita em um mundo de 6.000 anos!” – fique atento). E em termos de defesa filosófica, depois de uma queda no Iluminismo, várias novas mentes apareceram e deram maior força e respeitabilidade para a crença em Deus, como Alvin Plantinga, Richard Swinburne, etc. Existe até uma matéria de capa na revista “Time” (que você pode ver ao lado) que fala exatamente sobre a revolução filosófica que trouxe Deus de volta ao debate nas universidades americanas, ao contrário dos que achavam que “Hume e Kant já acabaram, para sempre, com Deus na Filosofia”.

Sobre as “lacunas”, isso é só mais uma caricatura grosseira. Como eu vou explicar pela milésima vez no blog: os argumentos a favor da existência de Deus (da causa primária, kalam, fine tunning, etc) são argumentos DEDUTIVOS (isto é, se as premissas foram verdadeiras, a conclusão segue inescapavelmente delas) não só teorias do tipo “Ah, um deus se encaixaria aí, então deve ter sido ele que fez”. Então a crítica também não é válida.

A sociedade está ficando secular? Bom, a existência de uma tendência não significa que no futuro toda a sociedade será assim. “Como aumentaram os níveis de secularismo, logo, no futuro, toda a sociedade será secular”. Essa é uma falácia slippery slope ou domorro deslizante. Não segue do aumento de uma taxa “X” na sociedade que todos serão assim no futuro. Decerto há bem mais pessoas em relações homossexuais no Brasil do que há 200 anos. Isso nos leva a considerar que todos serão homossexuais no futuro? É certo que não (bem, se bem que depois dos kits gays para pequenos, é melhor ter mais cuidado nesse tipo de consideração)…

Além disso, é bom lembrar de comentários como os do artigo A Sobrevivência dos mais devotos [Link quebrado]. O autor desse texto lembra que pessoas com estilo de vida secular se casam menos (quando não se casam com pessoas do mesmo sexo), praticam abortos, usam mais métodos anticoncepcionais e tem menos filhos (isso quando os têm). Já os religiosos, principalmente os mais ortodoxos, são o exato OPOSTO desse comportamento, tendo vários e vários filhos e se casando muito mais. Vejamos: pessoas com valores seculares tem poucos filhos que, seguindo o estilo de vida dos pais, também vão ter poucos filhos, que também não vão ter muitos filhos, enquanto pessoas com valores religiosos tem uma prole numerosa, que se multiplicará na mesma proporção, e a próxima geração se multiplicará ainda mais… E… voilá. Em breve, serão a maioria novamente. Pura matemática e seleção natural. Um teste empírico disso pode ser feito na Europa. Europeus seculares tem baixas taxas de natalidade, enquanto muçulmanos vão crescendo aos poucos, aliando as política de “multiculturalismo” (que dá apoio a imigração desenfreada) com vários filhos por casal. Em vários países isso HOJE já está gerando alguns problemas. A Europa, em 100 anos ou menos, pode virar um continente “muçulmano”.

Ah sim: uma outra questão interessante. Se a secularização é “inevitável”, por que eles tem que ficar enchendo o saco dos religiosos, criar sites de divulgação do secularismo e militar o dia todo na internet para “acabar com a religião”?

Isso lembra um pouco o discurso dos velhos marxistas. Segundo eles, a revolução do proletariado era inevitável e ia acontecer, mais cedo ou mais tarde, por culpa das “contradições internas do capitalismo”. Se vai acontecer, queira eu ou não, por que eu arriscaria minha vida e meu bem-estar lutando por algo cuja ocorrência já está determinada? Eu simplesmente vou para casa, sento no sofá e espero, preservando a minha vida para que eu também possa aproveitar a nova sociedade.

Esse é mais um caso de paralaxe cognitiva, pois observamos a separação entre a eixo teórico e experiência real do indivíduo.

Então, basta lembrar que:

  • (1) A porcentagem de religiosos, em geral, não torna mais ou menos verdadeira a religião em nada (sendo isso apenas uma intimidação);
  • (2) O conhecimento não está “destruindo” Deus (pura propaganda), sendo que os argumentos para a existência divina estão ficando mais fortes e com mais defensores no passar das últimas décadas;
  • (3) Tendências não são irreversíveis, portanto se há uma tendência maior para o secularismo no momento, não significa que ela irá continuar para sempre;
  • (4) E o pior para o neo-ateu, é que existem estudos que indicam que o secularismo pode CAIR no longo prazo, pois os religiosos tem tendência de ter mais filhos e os seculares menos;
  • (5) Assim, nada disso constitui o menor caso contra Deus e contra a religião, podendo ser jogado direto na lata de lixo;

A refutação pode seguir essa linha:

  • FORISTA: Quanto mais o conhecimento avança, mais extraordinária fica a alegação de que Deus existe. Em breve, não existirão mais lacunas para Deus preencher.
  • REFUTADOR: Bobagem. Os casos filosóficos para a existência de Deus estão mais FORTES agora do que há algumas décadas. A teologia do “Deus das lacunas” já foi abandonada há tempos, então isso é só um espantalho da sua parte.
  • FORISTA:A sociedade já percebeu os males da religião e a secularização não irá parar até ficar completa. Podemos perceber isso todos os dias, pois a religião está cada vez mais fraca. Em breve, ela não irá mais existir.
  • REFUTADOR: Será? Seculares tem poucos filhos, enquanto pessoas com valores religiosos tem muitos. É só olhar a Europa aí, para ver que ela pode virar uma “Eurábia” muçulmana em breve…
  • FORISTA: É inevitável o domínio do ateísmo. Só há duas opções: virar ateu ou continuar com suas crenças da idade do Bronze. Não é preciso dizer qual a correta.
  • REFUTADOR: Pura falácia ad antiquitatem. Não é por uma idéia ser antiga que ela fica menos válida. Ainda hoje usamos Aristóteles como referencial em estudos de lógica. Alias, aproveite e vá estudar um pouco dela.
  • FORISTA: Ahn… Mas eu só estava comentando. Não quis dizer que Deus não existe por isso.
  • REFUTADOR: Então traga ARGUMENTOS, não sua opinião (que tem valor zero). Essa é uma arena de debates, não de fofocas…

Dessa forma, a técnica é neutralizada.

Conclusão

Como eu expliquei, essa técnica só tem efeitos psicológicos. Pode incomodar um pouco o religioso, mas até ele perceber que tudo é só mais uma jogada suja da outra parte.

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