Técnica: Se há religião, não deveria haver sistema penal

Para entendermos o neo-ateísmo, é essencial entendermos o seu modus operandi. A estratégia essencial executada por neo-ateus (conscientemente ou não) é a propagação de ódio antirreligioso (contra a idéia de religião e contra a pessoa dos religiosos). Para executar essas estratégias, vários truques são aplicados em profusão (ou, para usar a terminologia de Luciano Ayan, várias “rotinas”). Esses truques tem conteúdo emocional (baseados, principalmente, em rebaixar o “campo religioso”, ridicularizando-o, e elevar a si mesmo, sendo motivo de orgulho; ex. Ateus são fortes, Teístas São Fracos [Crença em Deus por necessidade]) ou intelectual (tentativa de fingir que existem contradições ou razões para invalidar a crença; ex. Não consigo imaginar Deus [Link quebrado]).Claro que esses truques podem ter seus dois lados aplicados simultaneamente (e, na verdade, normalmente é assim). Mas parte boa parte dos truques emocionais se baseia em apresentar frases prontas contra a religião, do tipo “Pessoas boas fazem coisas boas, pessoas más fazem coisas más, mas para pessoas boas fazerem coisas más é preciso da religião”. Cada vez que uma frase dessas é postada, a plateia neo-ateísta comemora como se o seu time tivesse feito um gol em final de campeonato.

Claro que todas essas frases são FACILMENTE destruídas a partir de um approach cético sistemático. Com esse approach, conseguimos neutralizar a propaganda feita por neo-ateus, impedindo a propagação do ódio antirreligioso.

Enfim, feita essa introdução, uma das frases prontas usadas por neo-ateus se baseia na seguinte idéia: se há religião, não deveria haver sistema penal. Aí vai um exemplo de aplicação desse truque:

· NEO-ATEU: Fico imaginando um dia que todas as leis criminais fossem abolidas. Gostaria de ver esses carolas religiosos vivendo apenas sobre a proteção da moral e das iniciativas religiosas somente. Você teria coragem? Hã? Onde está sua religião agora?

Sim, acreditem: neo-ateus repetem essa frase. Observe também que na maioria dos casos esse truque será aplicado com uma frase de intimidação em conjunto (que consistirá em um desafio), além da idéia de que a existência da religião deveria, de algum modo, garantir a paz social com um homem “bom”.

Mas a refutação desse caso é simples.

Falo aqui pela linha cristã. Para vivermos sem leis, somente a partir da religião, seria necessário um modo que nos permitisse e indicasse a existência de um homem (dito de forma genética) confiável. Se o meu vizinho é confiável, e todas as pessoas também o são, então eu não precisaria realmente de um sistema penal. Afinal, todos os problemas, já que as pessoas são boas, poderiam ser resolvidos na base da boa vontade.

Mas é isso que o Cristianismo promete?

Vamos lembrar: não há simplesmente NADA no Cristianismo que diga que a mera existência da religião fará o homem bom e confiável na terra. É justamente o contrário. Basta lembrarmos de uma mensagem poderosíssima proferida na Bíblia: “Assim diz o SENHOR: Maldito o homem que confia no homem”.

Simplesmente NÃO há como dourar a pílula. Se alguém segue uma linha cristã tradicional, então essa pessoa NÃO pode confiar no homem. Simples assim. E não tem nada de “talvez” ou “quem sabe”. Quem confia no homem recebe inclusive a alcunha de “maldito”. O homem é tendente ao mal e somente com muito esforço e aperfeiçoamento pode atingir um estado melhor. Mas não há nada como um “homem perfeito” nessa vida. Qualquer um que venda essa ideia é um charlatão, que merece ser descartado de primeira.

A base do sistema penal é o ceticismo em relação ao homem. Se eu não sei se a outra pessoa vai fazer o bem ou não, podendo me prejudicar, então eu tenho que ter um sistema que a puna quando sair da linha. E podemos dizer que o cristianismo tradicional é cético quanto ao homem. Assim, a frase volta a ser justamente o contrário: é justamente uma postura religiosa que PODE dar a base teórica para a manutenção do sistema penal.

Claro que ateus também podem ser céticos quanto ao homem. Portanto, isso não é exclusividade dos religiosos. Mas se formos observar, uma boa parte dos ateus hoje é adepto do humanismo. Para o humanismo, ao contrário da antiga crença cristã, o homem “é bom”, sendo que a bondade dele foi “corrompida pela sociedade”. Para que ele volte a ser “plenamente bom” (como em um estado primitivo) é preciso rearranjar o modelo organizacional, muitas vezes até constituindo uma “sociedade perfeita”. (Para citar novamente o Luciano, o site dele traz uma série de bons artigos falando disso nos últimos dias).

Como exemplo disso, temos algumas variantes do comunismo e anarquismo, segundo a qual a mudança das relações materiais de produção levará inevitavelmente a um modelo de sociedade “onde tudo será compartilhado” e “ninguém sentirá falta de nada”, sem que o Estado seja necessário como organização política e sem um sistema jurídico punitivo. Se essa ideia não fossem extremamente perigosas (capazes de gerar os maiores genocídios da história da humanidade no século passado), ela seria simplesmente digna de risos. Não há indícios que a natureza humana tenha mudado ou que seja capaz de mudar, mesmo em princípio, e todas as evidências demonstram como o ser humano é capaz de ser cruel.

Em resumo, é com o humanismo (de vários neo-ateus) que se acredita que o homem “é bom”, que vai “aumentar a empatia” e similares até um ponto no qual viveremos sempre em paz. Mas o cristianismo tradicional será sempre cético ao homem.

Portanto, com a religião, nessa variante, SEMPRE teremos o aviso para ter o sistema penal. E no humanismo isso nem sempre é necessário.

Ou seja, a crítica acaba caindo muitas vezes no próprio pé de quem iniciou a discussão.

E feita essas distinções, mais um argumento estará refutado.

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