Técnica: Se eu estou errado, me convença disso!

Nesse estratagema, o neo-ateu tenta apelar para um convencimento pessoal de que ele está errado. Ele vai dizer que você tem o dever de fazê-lo perceber que está errado em decidir pelo ateísmo, não só derrubar os argumentos que ele apresentar. Essa é uma variação da técnica “Se houvesse evidências, eu acreditaria”.

Uma aplicação prática pode proposta assim:

  • FORISTA: E então agora eu quero que algum cristão ME PROVE A EXISTÊNCIA DE DEUS.

Ou ainda:

  • FORISTA: Se o Ateísmo não é correto, então ME CONVENÇA  a aceitar o Cristianismo como correto.

O problema dessa técnica é que ela foca no INDIVÍDUO, não nos argumentos.

E, focando no indivíduo, o que vai valer na avaliação é a subjetividade e os parâmetros que ele mesmo escolher. Se ele resolver negar a lógica básica, você pode demonstrar ao público que ele está errado, mas não há garantias que vai convencer a ele da mesma maneira.

Além disso, vários debatedores são extremamente desonestos, beirando a picaretagem.

Nesses casos, não há o como existir um diálogo. Apenas deve-se investigar e demonstrar as fraudes cometidas por ele.

A conversa e o convencimento só podem ser feitos com pessoas em quem você confia e que estão dispostas a ouvir sinceramente. Nunca malucos da internet.

Deixa me dar um exemplo para ilustrar melhor a situação.

Imagine que um ladrão armado entre na sua casa e roube todos os seus pertences.

Você, então, protesta: “Isso é um crime!”.

Ao que o ladrão responde: “Se isso é um crime, me convença que é errado que eu vou para cadeira!”

Alguém pensaria que a vítima teria sucesso em convencer o ladrão a se entregar?

É claro que não.

Se o critério é a persuasão da outra parte, então ELA é quem manda no jogo. Os critérios devem ser baseados pelo que ela acha, apenas. Assim, se ele disser que o a base do julgamento é o ativismo judicial baseado na luta de classes (os pobres não precisam respeitar os direitos da classe média ou da classe alta), ele vai estar legitimado a roubar.

É exatamente por isso que disputas judiciais são feitas para convencer um auditor INDEPENDENTE, que opera sobre um conjunto de regras e princípios definidos de antemão e válidas para todos julgamentos, nunca o acusado, que pode adotar qualquer critério non-sense para se justificar.

Da mesma forma, é por isso que pessoas como William Lane Craig dificilmente participariam de programas como The Atheist Experience, pois o foco desse programa é o CONVENCIMENTO dos apresentadores. Seria ingênuo pensar que alguém poderia alcançar sucesso em um algo nesse formato, pois os âncoras podem negar qualquer coisa, tendo o “controle da situação” na sua mão.

Se a situação fosse um debate público, moderado por um terceiro,  com tempo definido para cada parte e focado no convencimentos dos espectadores, então os neo-ateus provavelmente iriam fugir do confronto. Assim como o ladrão fugiria da justiça.

Resumindo, temos que lembrar o conselho de Schopenhauer no seu livro de Dialética Erística:

“Em todas discussão, ou argumentação em geral, é necessário que os contendores estejam de acordo em alguma coisa que se toma como ponto de partida para resolver a questão que se trata: contra negantem principia non est disputandum (não se deve discutir com quem negue os princípios)”. (Dialética Erística, pág. 123)

Schopenhauer, mais uma vez, estava corretíssimo.

O único reparo a essa recomendação é que, obviamente, o autor não estava pensando em situações em que um debatedor entra numa arena pública para fazer PROPAGANDA difamatória e sim debates acadêmicos formais em que um deveria mostrar o erro do outro.

No primeiro caso, é neutralizar o ato de difamação e deixar bem claro para o público, parte por parte, o erro do adversário.

No segundo, é perda de tempo.

Melhor nem começar.

Em suma, os pontos que devem ser lembrados para não cair nessa técnica:

  1. O convencimento só pode ser feito com alguém que aceite os princípios e que possuam uma base comum de conhecimentos que permita um diálogo “harmônico”, baseado na confiança mútua;
  2. Não há como julgarmos se pessoas na internet tem ou não honestidade intelectual suficiente para que (1) ocorra;
  3. Por isso, o foco deve ser mostrar para o público que o adversário está errado ou mentindo, JAMAIS se importando com o que o outro vai achar ou não, pois o aspecto pessoal dos indivíduos não importam, somente seus argumentos;

A refutação pode seguir na seguinte linha:

  • FORISTA: Se o Ateísmo não é correto, então ME CONVENÇA  a aceitar o Cristianismo como correto.
  • REFUTADOR: Quem disse que eu me importo com o que você acredita? O máximo que eu posso fazer é demonstrar se seus argumentos tem erros. Não queria convencê-lo, até porque não sei se você tem honestidade intelectual o suficiente para aceitar idéias que vão contra o que você pensa hoje…
  • FORISTA: Já entendi, está com medo, não é? Na hora de justificar você fica todo com medinho kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
  • REFUTADOR: Besteira. Convencimento só se faz com pessoas que você conhece e confia. E sua pessoa não se enquadra em nenhum dos dois requisitos. Você pode muito bem ser um psicopata que não quer aceitar a existência de Deus de jeito nenhum. Tenho o dever de não ficar jogando pérolas aos porcos, não sabia? Por isso só venho analisar seus argumentos e fim.

[e assim vai, até deixar claro que a pessoa dele não importa e que o objetivo é apenas neutralizar a propaganda]

Conclusão

O foco nos debates deve ser apenas no DESMASCARAMENTO público, nunca o convencimento da parte contrária. Quem fizer isso, está cometendo um dos maiores erros estratégicos possíveis: deixar a decisão na mãos dos adversários. Aceitando o ideário e os critérios do outro debatedor, nunca será possível vencer o duelo pessoal.

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