Técnica: Repetindo o argumento em tom irônico ou Declaração de Incapacidade.

Nessa técnica, o debatedor neo-ateu, encurralado no debate, usa um apelo emocional para tentar vencer e conquistar o público. Depois de apresentada uma argumentação ou uma objeção contra os argumentos utilizados pelo neo-ateísta, a réplica desse forista não apresenta nenhuma nova idéia: consiste, basicamente, em apresentar o que foi dito de forma jocosa ou irônica, como tentativa de desqualificação. Pode vir acompanhada da Falácia do Espantalho, mudando pequenos pontos aqui e ali do que foi dito, de forma a tornar a alegação original ridícula.

Colhi alguns exemplos de debates na internet.  Seguem eles abaixo:

  • QUEM ATACA: Ora essa, se Deus existe, de onde veio Deus?
  • REFUTADOR: Na verdade, a teologia clássica trata Deus como eterno, pois é um ser não contingente ao tempo. Não tendo início, segundo o princípio “Tudo que passa a existir tem uma causa”, não precisa ser um ser causado.
  • QUEM ATACA: O quê? O que leva alguém a postular a existência de um ente “além do tempo e do espaço”? Alguém realmente vê algum significado nesta definição? Essas besteiras estão muito acima do que um iniciante como eu pode entender, realmente.

Ou ainda:

  • QUEM ATACA: A religião promove a ateofobia. Deveria ser criminalizada por isso.
  • REFUTADOR: Quem promove a ateofobia são algumas pessoas, não a religião, que é um ente abstrato. Além disso, nos princípios do Cristianismo, diz-se que Deus odeia o pecado, não o pecador. Quem promove “atefobia” não está sendo coerente, então…
  • QUEM ATACA: “Deus diz”? Não dá pra entender…Será que não dá pra debater simplesmente usando a lógica e o intelecto, deixando as fantasias de lado? Será que o cérebro dos crentes só funciona assim baseado em fantasias? Como discutir assim?

Mais uma:

  • NEO-ATEU: Deus existe?
  • REFUTADOR:  Talvez sim. Por quê?
  • NEO-ATEU: Como acreditar em um velhinho de barba branca, sentado numa nuvem, olhando de alguma maneira (deve ser um mega-telescópio, hein…) para todos e dizendo “Aham” ou “Uhum” para nossas ações? (*) Talvez fizesse sentido para um camponês na idade do Bronze, mas não para o homem moderno…. (* aqui, foi utilizada também a Falácia do Espantalho, a la Lewis Wolpert, pois as correntes mais fortes teístas não dizem que Deus é um ser humano com idade avançada sentado em nuvens por aí, nem que usa telescópios)

Schopenhauer já havia tratado sobre essa técnica no seu livro de Dialética Erística. O filósofo descreveu seu uso como uma forma de debate desonesto, como um fim para atingir a platéia e não como busca da verdade. Leia a transcrição abaixo:

Quando não se sabe opor nenhum fundamento aos do adversário, pode-se declarar com alegação irônica de incompetência: “O que você diz ultrapassa  minha débil capacidade de compreensão; pode estar certo, mas renuncio a minha capacidade de comprendê-lo e  renuncio a todo julgamento”. Com isso, insuamos aos ouvintes,  entre os quais gozamos de consideração, que se trata de coisa insensata. (pág. 172-173)

O estudioso alemão estava, em essência, correto: em todas elas, não houve uma linha sequer gasta para comentar, formalmente, a validade ou invalidade das premissas e das propostas feitas. Os princípios de um bom debate não foram seguidos e, portanto, não servem como refutação em lugar algum. A técnica é falha logicamente, embora possa produzir bons resultados no campo emocional.

Conclusão

Schopenhauer  dá o seu antídoto para essa técnica, dizendo que, para isso, você deve refazer a explicação de forma tão “mastigada que ele nolens volens [querendo ou não] tenha que entendê-la e fique claro que ele, no princípio, em realidade não entendeu nada. Assim, se retorce o argumento: ele queria provar um absurdo e nós provamos uma incompreensão. Ambas as coisas, com requintada gentileza.” Pessoalmente, digo se o outro debatedor for um troll, você não deve esperar “gentileza”: refute para o público, pois qualquer coisa que você escrever não será aceita de maneira alguma. Debates com pessoas que demonstram querer “causar” e não “dialogar”, consistem em perda de tempo.

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