Técnica: Presidiários são cristãos

Nesse truque, o neo-ateu tentará fazer uma intimidação dizendo que a maioria dos presidiários são cristãos (ou, ao menos, teístas) e não ateus. Logo, isso demonstraria alguma superioridade por parte do ateísmo. Richard Dawkins, em Deus um Delírio, não foi tão direto, mas usou de relance a ideia do senso comum neo-ateu:Estou inclinado a desconfiar (com base em alguma evidência, embora possa ser simplista tirar conclusões delas) que haja bem poucos ateus nas prisões.

Dawkins pode ser acusado de tudo, menos de ingenuidade. Quando ele faz esse tipo de sugestão (ou outras do tipo “A raiz do todo mal”, acrescentando um “?” no final) é óbvio que isso é calculado para passar uma mensagem para o público, embora, no fim,  sem maiores fundamentos intelectuais. Funciona SOMENTE como propaganda.

Quanto à técnica em si, agora falemos da refutação. Em primeiro lugar, essa é mais uma falácia baseada na técnica (já refutada) Críticas sociológicas a religião validam o ateísmo. Mesmo que o dado fosse verdadeiro, isso não tornaria a crença em Deus injustificada ou seria m argumento para o ateísmo de forma alguma .

Vamos deixar claro: esse dado não demonstra em NADA a existência ou inexistência de Deus. Falar sobre dentro da disciplina com esse fim seria, no máximo, um passatempo divertido.

Em segundo lugar, quais as evidências cabais de que os cristãos são maioria nos presídios? Muito se fala, mas os dados dificilmente apareceram de forma irrefutável. Na verdade, há até dados em contrário. Por exemplo, na Inglaterra, segundo o gráfico disponibilizado no site Darwinismo, a maioria dos presidiários não é adepto de alguma religião. Reproduzo a imagem abaixo:

(OBS.: Não subscrevo tudo o que está escrito na imagem)

Em terceiro lugar, mesmo que o dado fosse verdadeiro, teríamos que lembrar algo que qualquer cético deveria saber: correlação não é causação. Muitas variáveis teriam que ser eliminadas até algum tipo de conclusão poder ser atingida. Por exemplo, algumas dúvidas que teriam que ser retiradas:

  • Qual é o grupo social onde se concentram mais ateus?
  • Dentro desses grupo sociais, qual a porcentagem de religiosos?
  • Dentre os religiosos, qual é a incidência (proporcionalmente) de crimes por grupo?
  • Dentre os ateus, qual é a incidência (proporcionalmente) de crimes por grupo?
  • Qual é a idade média de um ateu e qual a idade média de um religioso (pode ser que os ateus sejam, na sua maioria, por exemplo, entre 13-18 anos, com menor chances de cometer crimes graves)?
  • Em que momento o presidiário perdeu/ganhou sua crença? Antes ou depois do crime?
  • Qual é o motivo que levou o sujeito S a cometer o crime?

Esse último ponto é mais importante. Qual é o motivo que levou S a cometer um crime? Para o neo-ateu poder falar algo, o motivo teria que ter causalidade DIRETA com a religião. Por exemplo, digamos que S possua (1) graves distúrbios psicológicos e (2)histórico de humilhações pesadas na escola (principalmente por parte de garotas, até onde se sabe) e é (3) religioso. A partir daí, S, em um momento de raiva, bate em uma mulher qualquer e vai preso.

Digamos que S não fosse religioso, mas ateu. Ainda assim ele poderia cometer o crime? Claro. O determinante aí foi (1) e (2) e não (3). Mesmo sem o último item, é plausível pensar no evento acontecendo (faça o raciocínio inverso – não tire (3), mas (1) e (2)– agora e imagine os fatos). A presença de três foi um mero INCONVENIENTE, não um fator causal. Lembrando também que o cristão SÓ vai para cadeia se NÃO cumprir o seu código de conduta religiosa (pelo menos até a aprovação da PL 122)…. Ou alguém aí está sendo preso por amar demais o próximo?

Talvez o neo-ateu responda que “Isso prova que a religião não torna a pessoa imune a erros morais”.

Correto, mas a doutrina religiosa tradicional nunca prometeu criar um país das maravilhas na Terra somente por que um tanto de pessoas vai ter uma crença religiosa ‘x’. Aliás, isso está mais para o “outro mundo melhor” dos neo-ateus humanistas seculares com a eliminação da crença do que o contrário, pois a religião reconhece a falibilidade do homem…

Em resumo, para refutá-lo, lembre:

  • (1) A alegação “(p) a maioria dos presidiários são religiosos” não serve nem para demonstrar a existência nem a inexistência de Deus (sendo uma falácia sociológica, no máximo);
  • (2) A alegação (p), no momento em que for feita, precisa ser provada CABALMENTE para servir de crítica aos religiosos (e, na verdade, existem até indícios contrários);
  • (3) Uma vez provada, deve-se DISCRIMINAR as diferenças para chegar a um fator causal diferencial entre ateus e religiosos;
  • (4) Se não for provado que há um fator causal religioso nos crimes. então a crítica para a religião nesses termos vale tanto… quanto absolutamente nada;

Feito isso, ele deverá estar refutado.

Aí é só mandar pastar e não se preocupar mais com outra loucura neo-atéia.

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