Técnica: Palavra “Ateu” sequer deveria existir

Nessa técnica, o neo-ateu tentará vai ter um ataque de “superioridade” e vai decretar que o termo ateísmo não deveria sequer existir de tão “óbvio”. Normalmente virá acompanhado de uma comparação aleatória: fadas, Papai Noel e toda a alta refinação filosófica que esperamos desses caras.Qual o motivo dessa observação? É óbvio que esse não é um argumento para a inexistência de Deus. Então nos resta a intimidação e ridicularização (dois componentes bases do neo-ateísmo).

Pode funcionar, na prática, da seguinte forma:

  • NEO-ATEU: Para falar a verdade, o termo “ateu” ou “ateísmo” não deveria sequer existir. Não existe uma palavra para identificar os que não acreditam em fadas ou duendes, como “afadistas” ou “aduendistas”. Nós não temos palavras para os que não acreditam no Monstro do Lago Ness. E da mesma forma não deveríamos ter para ateísmo.

Essa frase também pode terminar com um self-selling: “E da mesma forma não deveríamos ter para ateísmo….. que a reação natural de pessoas científicas e racionais” ou algo nessa linha.

O erro aqui é bastante simples: a questão sobre a existência de Deus faz parte de uma GRANDE tradição filosófica. Pensadores durante séculos debateram sobre o assunto, tentando ir positivamente pelo teísmo, demonstrar a inexistência ou justificar um agnosticismo.

Como forma de inserir uma posição mais facilmente na tradição filosófica, termos são criados e utilizados até mesmos pelos ateus. Assim, eles demonstram seu raciocínio e propagam suas idéias contra o paradigma dominante.

O mesmo vale para outras áreas da filosofia: alguns defendem um evidencialismo, outros um pressupocionalismo. Uns defendem o empirismo, outros o idealismo. Alguns o materialismo, outros o imaterialismo. Outros o realismo, outros o anti-realismo. O ateísmo (se é uma posição digna de respeito e que dialoga filosoficamente, é claro) é a contraparte do teísmo nessa parte do pensamento.

E os exemplos? Bom, se existisse uma enxurrada de livros comentando a filosofia do “Monstro do Lago Ness” (vamos pensar nisso por um segundo), possivelmente termos para os que defenderiam positivamente essa linha (algo como “nessalianos”) e para os contrários iria surgir (os “antinessalianos”).

Mas nenhum grande filósofo escreve/escreveu livros sobre a filosofia do Monstro do Lago Ness, das fadas ou dos duendes. São questões abandonadas e sem importância na história da filosofia.

E, queiram os neo-ateus ou não (vai ver eles pensam como Dawkins que “Why questions are just silly”…), a questão da existência de Deus é de grande importância para a espécie humana como um todo. Se não fosse assim, textos como esse sequer estariam sendo escritos e lidos e trabalhos sérios todos os anos na questão não estariam sendo comentados.

Portanto, tanto a reclamação quanto as comparações falham completamente.

Uma resposta possível vai assim:

  • NEO-ATEU: Para falar a verdade, o termo “ateu” ou “ateísmo” não deveria sequer existir. Não existe uma palavra para identificar os que não acreditam em fadas ou duendes, como “afadistas” ou “aduendistas”. Nós não temos palavras para os que não acreditam no Monstro do Lago Ness. E da mesma forma não deveríamos ter para ateísmo.
  • REFUTADOR: É claro que deveríamos ter. Deus é um assunto que é debatido FILOSOFICAMENTE sendo citado por praticamente todos os grandes pensadores do passado e permeando a vida de quase todas as pessoas. Por isso, termos como “teísta” e “ateus” acabaram sendo cunhados e se perpetuando. Monstro do Lago Ness, fadas e duendes NÃO são comentados em filosofia. Portanto, não tem termos próprios. Mas o teísmo e o ateísmo tem justamente por estarem sendo discutidos em antagonismo. Pergunta: você já lidou com toda tradição filosófica teísta para fazer pouco caso dela dessa maneira ou sequer a conhecia?
  • NEO-ATEU: Peraí, não é bem assim…

[E por aí segue]

Conclusão

É uma artimanha um tanto besta; mas como pode incomodar alguns, resolvi comentá-la. A erística tem bons efeitos em debate e deve ser denunciada sempre, é claro.

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