Técnica: Nós Somos Fortes, Vocês são Fracos.

Nessa técnica, o neoateu tenta aplicar um discurso de auto-ajuda que prega: “Nós somos os fortes realistas e vocês são fracos necessitados”. Parece ser um dos estratagemas mais populares e vemos uma utilização desse argumento no debate de Victor Stenger contra William Lane Craig, transcrito abaixo:

São Paulo disse:  “Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança.” A humanidade já deixou a infância. Nós não precisamos mais depender de amigos imaginários para companhia ou de pai do céu mítico para nossas necessidades. Nós podemos cuidar de nós mesmos. Nós podemos achar modos de viver nossas vidas de forma consistente com o universo revelado pela ciência.

Link aqui: http://edthemanicstreetpreacher.wordpress.com/2009/12/20/craig-stenger-transcript/

Como podemos analisar, já tem um forte de cheio de self-selling, ignorância quando ao âmbito da ciência e outras fraudes intelecutais, conforme meu post de ontem. Só por isso já deveríamos ter sérios motivos para duvidar.

Logicamente, a versão também não se sustenta. Todo o discurso do autor neo-ateu se baseia-em:

  • (1) leitura mental
  • (2) falácia genética.

Primeiro, ele usa termos como “amigo imaginário”  e tenta atribuir a crença em Deus à necessidades das pessoas em companhia e etc. Mas como ele conseguiu essa informação? O único modo de se conseguir isso seria através da confissão escrita (ou similares) de todos os bilhões de teístas do planeta o que, imagino, Stenger não tenha. Logo, ele deve ter apelado para algum tipo de telepatia para descobrir esse dado, o que já derruba sua pretensão. E mesmo admitindo que (1) fosse verdadeiro, ainda assim não seria o suficiente para dizer que Deus não existe. Tentar invalidar um argumento pelo modo que se adquire ele, na Filosofia, é conhecida como Falácia Genética. Mesmo que todas as pessoas do mundo acreditassem em Deus só pelo desejo de “companhia” , ainda poderia ser o caso de Deus existir.

Imagine a seguinte situação: um sujeito é pego por traficantes que fugiram da cadeia recentemente e espancado por não querer comprar suas drogas. A partir daí, começa a fazer campanhas para os presídios se tornarem locais mais vigiados e não fugirem mais condenados. Antes disso, ele nunca tinha pensando em fazer campanhas pela segurança. Alguém chega e tenta refutar: “Ele só quer mais segurança nos presídios porque ele foi espancado por alguns presos fugitivos.”

Isso provaria que a segurança atual é suficiente e o que o sujeito estava errado?

Claro que não. O modo pelo qual se adquire a crença é irrelevante filosoficamente. Importa se os argumentos conferem.

Ao meu ver, o Falácia Genética é um dos recursos mais desonestos que podem ser usados numa discussão.

Outra forma muita aplicada é a frase de Carl Sagan: “não é possível convencer um crente de coisa alguma, pois suas crenças não se baseiam em evidências, baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar”. É simplesmente uma outra versão do estratagema feito acimaO próprio Olavo de Carvalho já havia desmontado de forma simples e objetiva tal técnica, no seu debate com Rodrigo Constantino. Publico aqui, para reflexão, as melhores partes:

O retrato depreciativo é complementado pela afirmação de Carl Sagan que divide os seres humanos em duas classes: os fracos, que “necessitam acreditar” e os fortes e durões, como ele próprio, que encaram a realidade. A finalidade do parágrafo é puramente intimidatória: quer fazer com que você já entre na leitura prevenido de que, se não concordar com Constantino, será um fracote desprezível, um bobalhão sugestionável. A citação de Sagan só impressiona pela pobreza do seu diagnóstico psicológico

A fé religiosa não é nenhum tranqüilizante para fracotes amedrontados. É um desafio temível, que implica, no mínimo, a disciplina do autoconhecimento através do exame de consciência. O advento do cristianismo trouxe um aprofundamento da autoconsciência humana ao ponto de gerar a idéia mesma do eu como unidade autônoma responsável, desprovida das garantias da mera conformidade grupal que bastava aos gregos e romanos como supremo teste da moralidade. A idéia do indivíduo solitário, responsável por suas próprias escolhas morais sem nenhum apoio externo, aparece prefigurada na vida de Sócrates e no teatro grego, mas não se impregna de maneira alguma na ética predominante, focada no “cidadão” enquanto membro do grupo e não na individualidade enquanto tal. Inumeráveis estudos, que tomam como material de referência as narrativas autobiográficas, assinalam essa diferença. AsConfissões de Sto. Agostinho inauguram o gênero autobiográfico moderno porque nelas pela primeira vez um indivíduo faz o seu próprio julgamento moral não perante a comunidade de seus pares, mas perante sua própria consciência, balizada pelo confronto com o observador onisciente, Deus. Sem esse passo, a própria idéia da “independência de julgamento” teria permanecido em potência, sem efetivação histórica, e é claro que sem ela a pretensão mesma do “livre exame racional” seria inviável. (v. Karl Joachim Weintraub, The Value of the Individual. Self and Circumstance in Autrobiography, Chicago, The University of Chicago Press, 1978, reed. 1982.)

Não vejo o que possa haver de tranqüilizante e anestésico num jogo onde a maior possibilidade é a de que o jogador termine no inferno, já que “muitos são os chamados e poucos os escolhidos”. A profunda incerteza quanto ao destino eterno de cada qual está no cerne mesmo da vida cristã, e essa experiência é incompatível com a “necessidade de acreditar” da qual fala Carl Sagan. Os relatos de crentes famosos a esse respeito são tantos, mas os Sagans da vida não se dão o trabalho de lê-los: preferem adivinhar tudo de fora. Se lessem os depoimentos de Santa Teresa, Thomas Merton, Léon Bloy, Georges Bernanos, C. S. Lewis, Julien Green, Simone Weil – escolhidos a esmo entre milhares –, entenderiam claramente o óbvio: a fé como tranqüilizante para pessoas inseguras é apenas um slogandifamatório que não tem nada a ver com a realidade da vida cristã.

Link original para o artigo:http://www.olavodecarvalho.org/textos/homem_mim_2.html

(Visite também a comunidade de Olavo de Carvalho no orkut e veja seus comentários em vídeo no Youtube.)

No final das contas, não sobra muita coisa dessa besteira. É puro charlatanismo.

Conclusão

Se o neo-ateu tentar aplicar essa fraude, é só demonstrar o discurso de auto-ajuda e as falhas lógicas. Nesse sentido, paródias do tipo “O ateu não acredita em Deus por puro medo do inferno e também porque quer cometer imoralidades toleradas pela sociedade, mas não pelo cristianismo, sem ficar com peso na consciência” é um bom modo de fazê-lo acordar para a realidade e para a falha do argumento. Só um pouco de ceticismo já demole essa técnica.

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