Técnica: Exclusivismo Religioso é Imoral

Nesses tempos de politicamente correto, o exclusivismo religioso tem enfrentado alguma objeção no campo da discussão moral. Segundo alguns pluralistas, aqueles que são exclusivistas (como os cristãos tradicionais) são imorais ao acreditar que todos os outros grupos religiosos estão errados ou desviados do caminho certo. Para usar uma palavra que está na “moda”, os cristãos seriam algo como “etnocêntricos” na sua crença exclusivista e, portanto, imorais.

Vamos anunciar o argumento pluralista da seguinte maneira:

  • (P1) Se uma pessoa qualquer acredita que e acredita que os outros estão em erro ao divergir de p, enquanto existem outras pessoas que de fato divergem de p, está essa pessoa está sendo imoral ao acreditar que p (chame isso de “a tese pluralista”);
  • (P2) Não devemos agir imoralmente;
  • (P3) Portanto, não devemos agir contra a tese pluralista;

A idéia básica é que qualquer pessoa que alegar “Existem várias religiões; só uma delas é correta (uma vez que são contraditórias entre si); e eu acredito que a correta é aquela que pratico” (na maioria das vezes, no nosso contexto, imagino, o Cristianismo), ou similares, está sendo ou imoral, ou arrogante, ou egoísta, ou opressor ou arbitrário. Não é especificamente um truque neo-ateu, mas mais um reflexo do pensamento pós-moderno relativista usado por ateus em debates contra cristãos tradicionais. De qualquer forma, ainda é uma objeção e devemos lidar com ela.

Antes de tudo, devemos pensar nos tipos de pessoas que estão sendo acusadas de ter um caráter moral defeituoso. Pense em uma senhora camponesa da Idade Média ou, quem sabe, na mãe da sua mãe. Talvez essas pessoas tenham vivido em grupos bastante homogêneos no aspecto religioso, tendo devotado grande parte da sua vida à religião. E, embora tivessem alguma pequena noção de que existiam outras religiões no mundo, o pensamento de que elas eram alternativas para a sua própria religião ou que elas poderiam ensinar algo para nós sequer passou pela suas mentes; elas simplesmente deram por presumido, por causa do contexto em que viveram, que as coisas eram daquela forma, sem tecer maiores elaborações sobre o assunto. Elas poderiam estar cientes da existência de religiões indígenas, mas a religião indígena talvez não conseguisse se apresentar, dentro do seu dia-a-dia, sequer como uma opção para que elas a praticassem. Se alguém sugerisse que os índios na verdade estavam certos, a mera enunciação desse pensamento poderia ser até considerado um “choque” para elas. Talvez elas estivessem no lugar errado e na hora errada, mas não parece ser o caso de elas serem mulheres altamente imorais por acreditarem que estavam praticando a religião correta.

Um outro de caso de pessoa seria alguém que pensou seriamente no assunto, mas que acreditasse (sem culpa – ele poderia estar enganado ou não) ter argumentos muito bons para acreditar que e que também acreditasse que, ao conversar com qualquer pessoa, conseguiria fazê-la acreditar que mostrando esses argumentosNesse caso, seria difícil classificá-la como imoral. A alegação de que Bertrand Russell estava sendo imoral ao acreditar que o sistema de lógica desenvolvido por Frege era contraditório, quando Russell acreditava ter uma prova decisiva que convenceriria Frege disso, é, no máximo, implausível. Então, até aqui, a tese pluralista não vai muito bem.

Ainda existe um terceiro tipo de pessoa: alguém que pensou seriamente no assunto, deliberou sobre as outras religiões e sobre a tese pluralista, não pensa que tem nenhum tipo de argumento que iria necessariamente conseguir convencer as outras pessoas do contrário e mesmo assim continua acreditando em p. Um caso prático: obviamente, se eu acredito que Deus existe, então eu também acredito que os que acreditam que Deus não existe não estão certos sobre essa matéria. Essa é uma aplicação de simples lógica. Não há escapatória (ao menos fora da paralaxe cognitiva). Seria eu um delinquente moral por acreditar que Deus existe, então?

A resposta provavelmente é não. Vamos pensar nas hipóteses que eu tenho: eu posso (1) acreditar que Deus existe (naquilo que é normalmente chamado de “teísta”) ou (2) acreditar que Deus não existe (naquilo que é normalmente chamado de “ateu”, embora algumas pessoas digam que essa não é a definição correta) ou (3) não acreditar nem na existência de Deus nem na inexistência de Deus (naquilo que é normalmente chamado de “agnóstico”).

Agora, é evidente que se eu passar a aceitar (2) – a hipótese de que Deus não existe – então eu estaria mais ou menos na mesma condição do que eu estava em (1). Eu ainda vou estar aceitando algo que muitas pessoas não acreditam (e a maioria acredita em Deus) e não saberia de nenhum argumento que convenceria necessariamente qualquer pessoa que acredita em Deus que Deus não existe. Então essa posição não seria avanço algum. E o pior: eu estaria sendo hipócrita, pois (a menos que eu fizesse algum tipo de programa para mudar minhas crenças) eu ainda seria, de fato, um teísta, mesmo dizendo da boca para fora o contrário.

Mas eu ainda teria outra opção: eu poderia aceitar o “agnosticismo” ou tentar virar um “agnóstico” sobre o assunto. Algum pensamento como esse poderia passar pela minha mente: “A coisa certa para eu fazer, do ponto de vista moral, já que eu considerei as divergências e não sei de nenhum argumento que iria necessariamente convencer qualquer pessoa, é, então, deixar de acreditar tanto em (1) quanto em (2)”. Ou em outros casos: eu sei que existem muitas pessoas que consideram certo o racismo (talvez a população inteira da Alemanha) ou a xenofobia (talvez a população inteira do Japão) como atitudes moralmente corretas, embora exista oposição. Eu também sei que muitos consideram errado causar danos à terceiros gratuitamente, embora existam pessoas que consideram essas rasteiras legítimas. Eu acredito que é errado que minha colega se “prostitua” (no famoso “teste do sofá”) para o chefe para ganhar um cargo que estamos disputando; mas uma vez que ela acredita o contrário, e o mesmo vale para os outros exemplos, então eu tenho que deixar de aceitar tanto a versão afirmativa quando da negativa de todas essas teses.

Logo, seria este o comportamento certo que devo tomar nessas situações? Na verdade, o relativista cai na sua própria armadilha. Vamos lembrar da tese pluralista:

  • (Pluralismo) Se uma pessoa qualquer acredita que e acredita que os outros estão em erro ao divergir de p, enquanto existem outras pessoas que de fato divergem de p, está essa pessoa está sendo imoral ao acreditar que p;

Se a pessoa determina que não deve mais acreditar nem na versão positiva ou negativa para ser moral, não está ela dizendo, implícita ou explicitamente, que essa é a atitude superior, a atitude correta moralmente para ser escolhida nessas situações? Mas muitos (como eu) não acreditam que eu sou moralmente inferior por continuar a acreditar em Deus, ou que o racismo é errado ou que a prostituição da minha colega não é válida para conseguir o cargo somente porque existem divergências. E ele está em divergência comigo. Logo, ele mesmo, pelos seus critérios, seria uma pessoa imoral por acreditar na própria tese. E sendo uma opção imoral, ele também não pode optar por ela. Assim, a segunda opção agnóstica também não é nenhum tipo de melhora – com o problema de ainda estar baseada na hipocrisia. O pluralista me acusa de ser imoral por acreditar que os outros estão errados (como os ateus, se sou teísta) sobre algum assunto; mas o erro do pluralista é acreditar que tem uma virtude que muitos não têm e cair em problemas de auto-referência. Se isso não é um círculo, pelo menos é uma curva fechada no espaço.

Alguém poderia argumentar que ele pode deixar de acreditar também na sua própria tese; mas então ele já perdeu os motivos para deixar de acreditar ser exclusivista ele era inicialmente um,  e o argumento vai para o espaço. A menos que o pluralista apresente uma prova do tipo decisiva a favor de sua tese, então ele também é imoral ao agir segundo ela, segundo seus próprios parâmetros.

E, no fim das contas, qual é o grande problema de acreditar em algo mesmo sem conseguir convencer necessariamente os outros disso ou sabendo da existência de divergências? Eu acredito que minha colega agiu errado ao ocupar um cargo para o qual, na verdade, eu era quem estava qualificado para, ao se prostituir para o chefe. Eu sei que tanto ela quanto meu chefe provavelmente não pensam como eu. Depois de me perguntar e deliberar profundamente sobre o tema, eu ainda sei que não tenho nenhum argumento que iria necessariamente convencê-los, mas mesmo assim continuo acreditando que ela agiu de uma forma escusa. O que há de imoral nisso?

Nos mesmos moldes, alguém realmente e sinceramente acreditar que Deus existe e que a religião de Deus é o Cristianismo. O que mais ela pode fazer? Quem sabe pode, ao menos, evitar a hipocrisia e dizer: “Eu acredito em Deus. Se alguém acreditar que Deus não existe, não me resta mais nada a não ser acreditar que essa pessoa está errada. E não me torno imoral por isso”. Em resumo, a tese de que não se pode adotar uma crença se houver divergências é implausível e, assim, não precisa preocupar nenhuma pessoa que não tenha sofrido dos males do pensamento relativista.

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