Técnica: Cristãos selecionam o que ler na Bíblia

Nessa artimanha, o neo-ateu tentará dizer os religiosos escolhem o que querem considerar na Bíblia de forma aleatória. O critério de discriminação é um: o gosto pessoal do agente. E, assim, cristãos escolhem só o que querem levar em conta, ignorando as partes ditas “ruins” de forma aleatória conforme a conveniência.

O problema desse tipo de argumentação é ignorar que existem MÉTODOS HERMENÊUTICOS para se analisar a Bíblia. Se alguém segue um método, então não é mais possível alegar que sua seleção do que considerar ou não é aleatória. Afinal, ele está seguindo um esquema rígido e não seu sentimento do momento.

Se seguirmos um modelo bastante simples, parecido com um sugerido no blog do Luciano Ayan, podemos interpretar a Bíblia a partir dele:

  • 1. A base da interpretação da Bíblia para um cristão são os ensinamentos de Jesus Cristo;
  • 2. As leis civis e cerimoniais existentes antes de Cristo foram abolidas e a interpretação do VT deve ser feito com base na luz oferecida pelo Novo Testamento;
  • 3. A Bíblia não é um livro de descrição do mundo natural, mas sim um livro cujo objetivo é ser utilizada como um passo para aproximar o homem de Deus;
  • 4. Portanto, não se espera que TODOS os relatos ali sejam conselhos ou histórias literais (como devem ser em papers científicos), podendo ter fundo espiritual ou metafórico (seria ridículo pensar que Jesus dizia para “sermos como ovelhas” querendo que as pessoas passassem a comer capim e andar de quatro patas), ou mesmo que todos comportamento descritos sejam recomendados (quando há relatos de comportamentos de certos personagens não quer dizer que TODOS sejam aprovados – ninguém deve negar Jesus três vezes como fez Pedro ou andar na prostituição como Maria Madalena);
  • 5. Para diferenciar as partes literais das figuradas, usam-se método hermenêuticos (que são usados em TODO tipo de livro, não só a Bíblia) para identificar o tipo de texto, o autor, qual era sua intenção, o gênero literário, a opinião tradicional sobre o tema, etc, e a partir daí fazer um estudo para tirar uma conclusão (uma reclamação comum dos neo-ateus é que eles gostariam que TUDO na Bíblia fosse literal, o que não é verdade);

Se há um modelo de interpretação (que é simples, mas razoável), então a alegação de seleção aleatória simplesmente é enviada ao espaço. Se essa forma é seguida, então não é possível descartar de bate-pronto qualquer coisa. Portanto.… sem chances para o neo-ateísmo.

A outra reclamação seria de que o método existe, mas que na prática é ignorado por algum motivo.  Teríamos duas opções – uma é a falha do leitor e a outra é a falha do livro:

  • (a) Ou o motivo é por querer se adaptar a moral moderna/uma falha de caráter em seguir o que está escrito (do tipo “Não quero me enquadrar nesse ensinamento” ou “Vai ser mais fácil assim”);
  • (b) Ou porque se reconhece que certos trechos da Bíblia estariam errados;

Se for por falta de caráter, que tipo de observação é essa? Cai em uma “Crítica sociológica a religião/religiosos”. Se a pessoa não é capaz de seguir o Cristianismo apropriadamente por querer ser “cool” pelos padrões atuais, então o problema não está na verdade do Cristianismo, mas no indivíduo que erra somente. Nem de longe isso é um invalidador do teísmo.

E se há alguém que resiste a moral moderna, são justamente os cristãos. Aborto, homossexualismo, relativismo, etc., que são bandeiras tipicamente “modernas”, enfrentam sua objeção moral principalmente em comunidades cristãs. Então a primeira não cabe.

Se a intenção for a segunda, então é a aplicação do estratagema Criticismo Bíblico valida o ateísmo  (com variações do tipo “Você acredita em mundo de 6.000 anos!”). Mesmo que um pense que certo trecho da Bíblia não é correto, não segue logicamente disso a inexistência de Deus. O caminho é, na verdade, o inverso. É a falsidade do Cristianismo e do teísmo que implicaria na invalidade da Bíblia, não o contrário. Alguém pode ter alguma dúvida sobre passagens da Bíblia (o que é natural, pois é um livro extenso e, como qualquer obra dessa magnitude, exige estudos para ser compreendido em detalhes) e continuar sendo cristão sem problema nenhum.

A segunda também falha e o caso neo-ateu segue junto. Não há nenhum força nessa objeção.

Em resumo:

  • (1) A alegação de seleção aleatória é falsa, se demonstrarmos que existem MÉTODOS para verificar textualmente (e contextualmente) as passagens, pois um método é justamente algo ordenado, que é o contrário de aleatório;
  • (2) Se o método existe, mas é ignorado por falha do leitor, isso é problema dele e nem de longe prova coisa alguma para o neo-ateu;
  • (3) Se o problema é (supostamente) da Bíblia, isso mesmo assim não seria motivo para virar ateu ou deixar de ser cristão (o contrário é inversão de relação causal entre Teísmo, Cristianismo e Bíblia), portanto a objeção é irrelevante;

A partir daí, pode-se refutá-lo.

Conclusão

Como todas as estratégias de intimidação, essa serve para criar incômodo psicológico. Mas, pensando logicamente, limita-se a esse campo de atuação. Tendo isso em mente, a propaganda neo-ateísta não obterá o sucesso desejado.

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