Técnica: Contando suposto passado religioso

Nesse estratagema, a declaração do neo-ateu sobre um suposto passado religioso é aplicada como prova durante um debate sobre a existência de Deus ou sobre a coerência da religião.
Embora eu não duvide que uma parte dos ateus já tenha sido de religiosos (e vice-versa), uma coisa que precisa ficar clara sobre isso é declarar passado religioso ou declarar ter estudados os argumentos para o teísmo durante o debate é um erro FEIO em dois pontos:

  • (a) validade lógica;
  • (b) credibilidade;

Do ponto de vista lógico, esse é um argumento quase bizarro. A desistência de fazer parte de uma religião ou a ausência de crença em Deus não prova… absolutamente nada sobre a validade da religião ou a existência de Deus. Se esses são os tópicos discutidos, contar histórias do passado não só é nonsense, como é completamente irrelevante. Deus pode existir mesmo que você tenha desistido de crer e uma religião pode ser coerente mesmo que você não faça parte dela.

E como quase toda declaração de passado religioso é feita por evidência anedota, ela também falha na CREDIBILIDADE. Evidência anedota é rejeitada, em um debate lógico, justamente porque qualquer um pode falsificá-la ou ter facilmente sido induzida ao erro em alguma experiência. Via de regra, em um argumentação FORMAL só valem evidências que podem ser conferidas – o que não é o caso da mera declaração. Por exemplo: se ele diz ter analisado e rejeitado o argumento Kalam, NÃO adianta SÓ dizer isso. Vai ter que demonstrar o erro e se preparar para receber um checagem por parte dos religiosos via escrutínio cético da sua refutação.

Uma aplicação prática dessa técnica (acompanha da refutação) abaixo:

  • DEBATEDOR: No tempo em que eu era católico e acreditava em Deus, meu ideal era ser santo e, por vários anos, tentei me comunicar com Deus, inteiramente em vão. Passei a estudar minha religião, ao mesmo tempo em que estudava muita filosofia, física, cosmologia, biologia, história e outros assuntos (música, pintura, literatura etc).  Meus estudos e reflexões me levaram a concluir pela total impropriedade da fé e, em decorrência, de qualquer religião. A princípio, aos 19 anos, me tornei agnóstico e depois, pelos 23 anos, ateu, da modalidade cética, isto é, não dogmática. Desde então venho me aprofundando no estudo das argumentações contra e a favor da existência de Deus e estou cada vez mais convencido de sua inexistência.
  • REFUTADOR: E eu com isso? No que isso prova a inexistência de Deus ou a invalidade da religião? Alias, o fato de você DECLARAR que era católico ou que estudou os argumentos a favor e contra não PROVA a verdade de nenhuma dessas proposições…
  • DEBATEDOR: Mas eu estudei, posso garantir. Não há motivos para duvidar de mim, estou sendo absolutamente verdadeiro.
  • REFUTADOR: Verdadeiro ou não, isso NÃO importa para o DEBATE. Experiências e declarações subjetivas não interessam, por isso pode parar com essa história e vamos para os tópicos importantes. Se quer desabafar, faça com um amigo ou com um psicólogo, não no meio de uma arena intelectual.

O que foi feito aqui foi a desqualificação da informação, nos pontos que eu havia citado acima, tanto no prisma da (a) validade lógica quanto no da (b) credibilidade.

Outro exemplo de aplicação prática:

  • DEBATEDOR: Eu não decidi ser atéia, apenas um dia, depois de muito pesquisar e tentar, percebi que não conseguia mais ver sentido naquilo, e não consegui mais acreditar.
  • REFUTADOR: Isso é apenas evidência anedota. Você pode estar mentindo, pode ter trabalho só com versões espantalhos dos argumentos a favor da religião… não há confiabilidade para sua informação e ela também não é relevante.
  • DEBATEDOR: Bom, se vou ser taxada de mentirosa quando estou sendo absolutamente sincera, é um bom motivo para não insistir na discussão aqui.
  • REFUTADOR: Não disse que você é mentirosa. Disse que você PODE estar mentindo (como qualquer pessoa seria capaz de fazer, inclusive religiosos). Por isso, não devemos aceitar evidência anedota em um  debate. É uma questão simples.

Ele pode tentar também uma variação citando um evento traumático ou alguma suposta qualidade negativa atribuida à Religião por suas vivências. Na refutação, deixe claro que a evidência não é nem confiável nem suficiente para julgarmos a religião como um todo, pois puxar um caso para o TODO constitui generalização apressada :

  • DEBATEDOR: O que você não entende é o seguinte. Eu virei ateu, pois na minha família percebi que a religião só promove a intolerância.
  • REFUTADOR: “eu percebi” configura evidência anedota. E mesmo que fosse verdadeira, esse é um problema da TUA família. Você não pode julgar fenômenos complexos (como a religião) apenas por exemplos pessoais, nem provar a inexistência de Deus porque alguém fez uma burrada.
  • DEBATEDOR: Mas o mundo seria melhor se todos fossem ateus, pois ateus sempre são tolerantes.
  • REFUTADOR:  Certo, como provou Mao Tse Tung, não é? E “apelo às consequências” (como o seu “se todos forem ateus, o mundo será “melhor””) não prova que o algo é verdadeiro logicamente…

Enfim, o que precisa ficar bem claro sobre essa questão é:

  1. Qualquer declaração de passado ou experiência é IMEDIATAMENTE descartada em um debate, se constituída apenas de evidência anedota;
  2. Mesmo que fosse a evidência seja válida, não contribui em absolutamente NADA para um debate sobre Deus ou sobre teologia;
  3. Qualquer erro, experiência ruim ou trauma que a pessoa declare ter, representa, no máximo, o que aconteceu com ELA, não uma regra geral na religião;

Conclusão

O efeito dessa técnica é puramente psicológico – logicamente, não possui valor algum. Pode fazer alguns estragos do ponto de vista retórico, por isso não deixe o monstro crescer muito. Puxe a descarga cedo e evite maiores problemas.

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