Técnica: Bíblia manda matar

Nos textos recentemente publicados sobre as pregações anti-religião de Sam Harris (ver este, e este também), ficou bem claro que o estratagema de associar religião intrinsecamente à violência ou até suicídios terroristas fracassou retumbantemente.

Relembrando, Sam Harris disse que religiões diferentes causariam violência, por pregarem coisas diferentes. Isso é um problema mais para o ateísmo do que para qualquer religião, pois o nível de discordância entre o ateísmo e qualquer religião é maior do que a discordância entre o cristianismo e o islamismo, por exemplo. Harris também disse que crença no martírio e crença em Deus aumentariam a chance de alguém morrer, por este não ter medo da morte. Ele não conseguiu comprovar isso, e, estatisticamente, foi demonstrado que religiosos valorizam a vida até mais do que os ateus, portanto essa tese dele foi para o saco também.

Diante de um conjunto tão grande de fracassos, eis que ele tenta, nesse caso, uma cartada desesperada, e lança uma frase que pode fazer seus leitores vibrarem de emoção, mas apenas se não a analisarem racionalmente. Vejam o que Harris diz:

[…] o livro do Deuteronômio revela que Deus tem algo bem específico em mente caso seu filho ou filha volte da aula de ioga disposto a adotar Krishna.

Logo em seguida, ele cita, diretamente do Deuteronômio, o seguinte trecho:

“Quanto te incitar teu irmão, filho da tua mãe, ou teu filho, ou tua filha, ou a mulher do teu seio, ou teu amigo, que te é como a tua alma, dizendo-te em segredo: Vamos, e sirvamos a outros deuses que não conheceste, nem tu nem teus pais, dentre os deuses dos povos que estão em redor de vós, perto ou longe de ti, desde uma extremidade da terra até a outra extremidade; não consentirás com ele, nem o ouvirás; nem o teu olho o poupará, nem terás piedade dele, nem o esconderás; mas certamente o matarás; a tua mão será a primeira contra ele, para o matar; e depois a mão de todo o povo. E o apedrejarás, até que morra, pois te procurou apartar do SENHOR teu Deus […]” (Deuteronômio 13, 6-10).

Basta, com isso, que a platéia de Harris saia, eufórica (e revestida de pleno ódio pelos cristãos – “ah, esses malvados, seguidores da Bíblia e o Deuteronômio, assassinos potenciais”, diriam eles), gritando aos quatro ventos e afirmando (nas palavras deles), que “esfregarão isso na cara” dos cristãos e isso será um “tapa na cara” de qualquer cristão que se defrontar com eles em debate. Não surpreende tal tipo de atitude, depois de um jogo tão sujo de Harris. O que é mais torpe ainda é o fato dele dizer, taxativamente, que alguém estar disposto a matar o infiel significa SEGUIR A BÍBLIA CORRETAMENTE, mas se este não sair matando isso significa IGNORAR BOA PARTE DOS CÂNONES das escrituras. Ou seja, ele inverte tudo, na maior cara de pau. Vejamos o que ele afirma:

Os moderados, de todas as religiões, são obrigados a interpretar de uma forma vaga (ou simplesmente ignorar) boa parte de seus cânones, para poder viver no mundo moderno. […] Quando os moderados se afastam do literalismo das Escrituras é que essa retirada não se inspira nelas próprias, mas em novos fatos culturais que tornam muitas das afirmações divinas difíceis de aceitar tal como estão escritas.

Vejam o conjunto de afirmações de Harris, em resumo:

  • (1) Quem segue a Bíblia, provavelmente não a conhece, pois senão saberia que ela é um livro que prega horrores
  • (2) O Deuteronômio é evidência de que a Bíblia manda VOCÊ matar
  • (3) Para que você não saia matando, terá que seguir uma versão editada e ignorar partes da Bíblia
  • (4) Se você não mata, e segue (3), é por fator cultural (externo à Bíblia), portanto, e seria uma negação da Bíblia
  • (5) O cristão literal (e não o moderado) tem que matar, pois isso seria seguir a Bíblia corretamente.

Antes de seguir, vamos fazer uma analogia com uma empresa. Suponhamos que esteja sendo feita uma reunião dos gerentes de projetos, e um desses gerentes tenha sido descoberto como um fraudador, tendo cometido fraudes em todos os projetos de que participou (incluindo envio de informações para fora da empresa, fraude em licitações no processo de aquisições, etc.). Será que devemos levar o gerente para uma reunião da equipe de projetos, para discutir estrategicamente os novos projetos, ou retirá-los desse tipo de reunião e preparar as medidas cabíveis, que vão de demissão por justa causa até processo judicial? Naturalmente é a segunda opção. A alguém que é desonesto, e extremamente recorrente em sua desonestidade, não se dá a chance que se dá a alguém honesto (pois aí estaríamos sendo injustos com os honestos).

O mesmo vale para o tratamento que se dá a tipos como Sam Harris. É de uma injustiça tremenda com os debatedores sérios (inclusive debatedores ateus, que sejam sérios) dar espaço em debate para gente como ele. O sujeito é praticamente um campeão em fraudes intelectuais, e praticamente nada do que ele escreve sobre religião é livre de fraude intelectual, como tenho mostrado aqui. É por isso que digo que com gente assim não se deve discutir, mas sim DESMASCARAR. Até por justiça com os argumentadores honestos.

Vejamos então, o tamanho da desonestidade de Sam Harris. Vamos citar primeiramente o que está dito no site Biblia Católica:

Denunciando os pecados do povo (Deut. 9:24); e os pecados dos patriarcas (Gen.12:11-13; 49:5-7); os evangelistas descrevem suas próprias faltas e as dos apóstolos (Mat.8:10-26; 26:31-56; Mc.6:52; 8:18; Luc. 8:24, 25; 9:40-45; João 10:6; 16:32) e a desordem nas igrejas (1Cor.1:11; 15:12; 2Cor. 2:4, etc.). Muitos indagarão: “Por que tinham que colocar aquele capítulo sobre Davi e Bate-Seba”? Bem, a Bíblia tem o costume de contar a verdade.

Quer dizer então que a Bíblia não esconde FALTAS que os próprios apóstolos cometiam? Obviamente que não. E Harris omitiu essa informação. Ou seja, ele tenta dizer que se está escrito em uma parte da Bíblia a expressão “matai” isso significa que é para sair matando. Em uma análise mais popular, seria o mesmo que alguém assistir o filme “300” e dizer que aprendeu ótimas lições, mas um difamador chegar e dizer: “Ah, é? Quer dizer então que você quer matar persas?”. A tentativa do Harris é a mesmíssima coisa.

Explicando melhor. Na Bíblia há vários tipos de leis, divididas entre Lei Moral (ou Eterna), Lei Cerimonial e a Lei Civil. Havia também as leis da saúde, obviamente adequadas ao período (de acordo com o conhecimento do período para as boas práticas de saúde). A Lei Moral é resumida nos 10 mandamentos, sendo a Lei de Deus. Já as Leis Cerimoniais e Civis foram ditadas por Moisés, e eram contextuais – mesmo que as leis cerimoniais fossem inspiradas por Deus, elas não deixavam de ser contextuais. Por exemplo, existiam punições com morte para blasfêmia, atitudes como olho por olho e dente por dente, ordenações a sacrifícios de animais, etc. Essas leis, naturalmente, são relacionadas a um período específico histórico, e somente aplicáveis naquele período, inclusive no tratamento a outros povos.

Quando Jesus morreu na Cruz, as leis que não eram as Leis de Deus (os 10 mandamentos) foram abolidas. Portanto, não é que a lei civil e a lei cerimonial daquela época não sejam obrigatórias, mas sim que elas são inconvenientes para o cristão, pois são arcaicas, serviram apenas ao seu tempo, em um dado momento, e entravam em conflito com as palavras e os ensinamentos de Jesus. É por isso que é feita a diferenciação entre as leis de Moisés e as leis de Deus. Alguém poderia dizer: e como diferenciar uma lei cerimonial/civil de uma lei eterna? Ora, para isso basta entender os 10 mandamentos, e entender os ensinamentos de Jesus Cristo. É justamente por isso que a nossa religião chama-se CRISTIANISMO. Agora, vejamos, como está em Efézios (2,15-19):

“Cristo é a nossa paz. De dois povos, Ele fez um só. Na sua carne derrubou o muro da separação: o ódio. Aboliu a Lei dos mandamentos e preceitos. Ele quis, a partir do judeu e do pagão, criar em Si mesmo um homem novo, estabelecendo a paz. Quis reconciliá-los com Deus num só corpo, por meio da cruz; foi nela que Cristo matou o ódio. Ele veio anunciar a paz a vós, que estáveis longe, e a paz àqueles que estavam perto. Por meio de Cristo, podemos, uns e outros, apresentar-nos diante do Pai, num só Espírito. Vós, portanto, já não sois estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos do povo de Deus e membros da família de Deus.”

Supondo que algum neo ateu ainda queira fazer a objeção e dizer que “se Jesus aboliu todos os mandamentos, então a Bíblia seguiria incoerente”. Claro que não, pois em Mateus (5, 17-18), Mateus relata as palavras de Jesus:

“Não cuideis que vim destruir a lei ou os profetas: não vim abrogar, mas cumprir. Porque, em verdade vos digo que, até que o céu e a terra passem, nem um jota ou um til se omitirá da lei, sem que tudo seja cumprido.”

Ou seja, as leis divinas (os 10 mandamentos) estão mantidas, pois Jesus veio para cumpri-las. As que estavam abolidas eram as leis de ódio, de separação, etc. Juntando a isso toda a história da vida de Cristo, fica evidente o seguinte:

  • (1) Quem lê a Bíblia como um todo (e não apenas pedaços separados) sabe que não há pregação de horrores, apenas a narração de épocas em que horrores ocorriam (e estão narrados por serem factuais)
  • (2) As palavras de Cristo mostram que qualquer tentativa de se usar o Deuteronômio para matar é uma DISTORÇÃO da Bíblia, pois os 10 Mandamentos e os ensimentos de Cristo dizem o contrário
  • (3) Para alguém usar o Deuteronômio para incentivo a crimes, AÍ SIM é que a pessoa terá que editar a Bíblia – ou seja, ler o Deuteronômio e NÃO LER O RESTO, e então achar que a Bíblia se resume ao trecho que Harris citou – mas aí seria um tipo bizarro de cristianismo self-service, algo como cristianismo harrista (inspirado em Sam Harris)
  • (4) Se você comete um crime, nos moldes do que está no Deuteronômio, você está em contradição com a Bíblia.
  • (5) O cristão literal não poderá cometer atos como aqueles citados no trecho trazido por Sam Harris, a não ser que queira estar em pecado… grave.

Concluindo, quando Harris afirma que o livro do Deuteronômio diz que “Deus tem algo bem específico em mente caso seu filho ou sua filha volte da aula de ioga disposto a adorar Krishna” ele está simplesmente praticando uma fraude intelectual de um nível altíssimo. É uma desonestidade de um grau dificilmente igualável. Ele não só distorce o texto Bíblico (retirando-o do contexto, o que, segundo a própria Bíblia, é uma abominação), como também INVERTE todo o seu significado para implementar um campanha de ódio e difamação CONTRA os religiosos. Em suma, ele é alguém sem nenhum traço de dignidade.

Conclusão

É claro que Harris tem motivos para odiar a Bíblia. Quem lê as escrituras e as compreende, como um todo, sabe que a Bíblia tem instruções para que nos desvencilhemos de desonestidades intelectuais e de mentiras deliberadas (a Bíblia, aliás, é um livro que valoriza em excesso a verdade e tem como um de seus mandamentos “Não praticarás falso testemunho”). Se Harris não tem outra arma senão a mentira deliberada, é natural que se incomode tanto com as Escrituras.

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