Técnica: Bíblia é da Idade do Bronze

Essa é uma técnica mais chulas do neo-ateísmo e representa, basicamente, um apelo emocional, mas costuma aparecer em debates.

Em resumo, o que o neo-ateu fará é dizer que “A Bíblia é da Idade do Bronze, portanto é falsa/portanto está ultrapassada”. Sam Harris utilizou variantes desse no debate com Craig e você também pode esperar neo-ateus alegando coisas parecidas com essas:

  • “Os autores da Bíblia eram ignorantes”;
  • “Os autores da Bíblia não tinham acesso ao conhecimento científico”;
  • “Os autores da Bíblia eram pastores da Idade do Bronze”;

E por aí vai.

É claro que Jesus Cristo (que, obviamente, é a BASE para a religião cristã e dos ensinamentos que devem ser retiradas da Bíblia) não viveu na Idade do Bronze, mas vamos lá.

O erro aqui é supor que é IMPORTANTE a idade ou o contexto de uma informação para ela ser correta.

Isso pode ser verdade, por exemplo, para tecnologia ou teorias científicas, que vão se atualizando e recebendo “correções” por via empírica ao longo do tempo.

Mas não é para livros como a Bíblia. A Bíblia tem uma história de cunho ESPIRITUAL. A função da Bíblia é aproximar o homem de Deus, não dar princípios de hidrodinâmica ou montagem de carros, que vão sendo “aperfeiçoadas”.

Pensando em uma analogia: os princípios básicos do discurso lógico são os mesmos em qualquer lugar e qualquer tempo. Por isso, o trabalho de Aristóteles, que foi realizado CENTENAS de anos antes de Cristo ainda é válido e pode ser estudado.

E o mesmo aconteceria para uma forma de revelação espiritual que fosse válida para qualquer lugar e tempo. Deus representa a verdade eterna; se Ele resolvesse revelar uma forma que considere válida para qualquer lugar e tempo (e estivesse satisfeito com ela – como os cristãos acreditam que Ele considerou em Jesus Cristo – sem precisar de reparos), mesmo que fosse há muito tempo, por que precisaria ficar dando “upgrades” o tempo todo? Não há sentido.

E o fato de os escritores da Bíblia serem pessoas “humildes” ou “sem conhecimento científico”, em certo sentido, também não importa nada. É o mesma falha anterior: pressupor que eles estavam trabalhando dentro de um “framework” tipicamente humano e científico. Mas se a Bíblia for verdadeira, então a inspiração para vem de Deus; e não importa o tipo de pessoa que recebeu a mensagem (pastor, pescador, pobre, etc). A falta de conhecimento científico também é irrelevante, pois a Bíblia (novamente) é de cunho espiritual. Fácil de entender.

A verdadeira questão que deveria ser feita: “Qual é a justificativa para se acreditar na Bíblia?”

Dizer que não é justificado porque “é um livro antigo” é a falácia ad novitatem, de cara. Ataques a pessoa dos escritores (como “eram pastores” ou “não sabiam ciência”) são falácias ad hominem e utilização da técnica do desvio (pois isso não importa para alguém ter ou não uma revelação, nem a Bíblia é dirigida para a pesquisa científica).

Depois de entender esses erros lógicos crassos, o argumento passa quase a ser digno de piada.

Mas vamos supor que o argumento realmente fosse um argumento sólido e que depois de sua apresentação não houvesse mais nenhuma maneira de acreditar na Bíblia. Isso implicaria em deixar de ser cristão ou mesmo teísta?

Nem de perto. Conforme expliquei no meu artigo “Criticismo Bíblico (não) valida o ateísmo”, a crítica para a Bíblia NÃO afeta o Cristianismo e o ateísmo, pois esses vem ANTERIORMENTE, dentro de um esquema de construção lógico, para a aceitação da Bíblia. E não se pode negar o consequente nessa linha para, assim, negar o antecedente; somente o inverso.

Represento esse esquema na figura abaixo:

Figura 1. Esquema de representação da continuidade lógica do teísmo cristão bíblico

Não há como afetar (I) e (II) criticando (III), embora o inverso seja verdadeiro.

Explico.

Suponha, por exemplo, que existam grandes motivos para pensar que (I) é definitivamente falso e que Deus não existe. Mas se Deus não existe, então não há mais sentido nenhum crer em (III). A Bíblia – representação da palavra de Deus, i.e. representação da palavra de um ser que não existe – vira um mero jogo de palavras humano creditada a um autor falso. Logo, derrubar (I) derruba (III) conjuntamente.

Mas derrubar (III) não implica em derrubar (I). Pois eu posso ser teísta mesmo ser acreditar na inerrância da Bíblia. Qualquer crítica a (III) fica RESTRITO a (III), sem derrubar os anteriores. (Pense nisso como um “esquema dominó”, onde derrubar o da frente derruba os outros, mas derrubar o último não derruba o primeiro). Simples assim.

A objeção que eu poderia ver a esse argumento seria: “Ahh, mas você só acredita em Deus e Jesus porque está escrito na Bíblia! Se não fosse isso, você não ia acreditar!”. Então o que objetor quer dizer é que (III) está na frente de (II) ou mesmo na frente de (I). Logo, criticar (III) seria derrubar, por consequência, (I) e (II).

Já discuti um argumento semelhante em outro lugar (Outros truques (resumo) – Parte I ). Ao meu ver, ele também não tem muito mais sucesso do que o anterior.

O fato é que há vários argumentos lógicos para a existência de Deus e é possível acreditar via tais argumentos, sem retirar a informação da Bíblia.

Eu também posso crer no Cristianismo a partir de uma experiência pessoal, como uma crença apropriadamente básica (o mesmo vale para Deus)1, através de argumentos históricos (como o Argumento da Ressureição) ou argumentos de base indutiva/dedutiva (como o Problema do Mal a favor do Cristianismo, por Richard Swinburne, o Argumento Ontológico Modal a favor da Trindade, etc) ou de outras evidências disponíveis quaisquer.2

Por isso, é ERRADO dizer que todos acreditam “Só porque está escrito na Bíblia”, pois é possível aceitar essas informações por outras fontes.

Então mesmo que esse argumento destruísse completamente (III), ele ainda não seria cogente para o abandono do teísmo ou até mesmo do Cristianismo.

Enfim, o que você deve lembrar é:

  • (1) Reclamações sobre a antiguidade da Bíblia pressupõem que ela necessariamente teria que ser atualizada, o que não é verdade, pois nem todos os campos precisam ser atualizados, uma vez que podem ser válidos universalmente;
  • (2) A Bíblia também está imune à reclamação de “falta de conhecimento científico” dos autores, pois seu objetivo NÃO era esse;
  • (3) A reclamação de que eram “pastores” ou similares também não importam, pois a Bíblia pode ser correta independentemente de quem tenha recebido a mensagem (seria, no máximo, uma falácia ad hominem);
  • (4) O ataque a Bíblia… se resume ao ataque para a Bíblia. Nada mais. É possível crer em Deus e em Jesus mesmo assim;

Feito isso, já é possível desmontar o truque neo-ateu.

Conclusão

O importante de se ter em mente é que os ataques feitos a Bíblia são importantes de serem respondidos, mas não são definitivos para a posição neo-atéia. Já vi em comunidades pessoas confundindo os itens (I), (II) e (III), em questão de ordem, nesse tipo de dúvida. Acho que a distinção é válida e espero que sirva para alguma coisa.

[Meu tempo online está sendo basicamente usado para escrever novos posts. Peço desculpas na demora da moderação dos comentários]

Notas:

  1. Falarei do assunto nas próximas semanas.
  2. Mais indicações de livros aqui, para o teísmo e o cristianismo: http://quebrandoneoateismo.com.br/2011/03/28/william-lane-craig-bibliografia-de-apologtica/ [link quebrado]
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