Técnica: A Bíblia pode ser mal interpretada, por isso é má

Trata-se de uma técnica de intimidação. Dentro da maneira de agir nos debates, essa alegação normalmente vem no seguinte esquema: primeiro, o neo-ateu aplica algo como a técnica a “Bíblia manda matar”. Você o refuta e em seguida ele reclama: “Mas alguém pode não entender e interpretar mal essa passagem. Por isso, a Bíblia é má”. Também é usada no contexto de imputar a idéia de que “Chamar de pecado gera violência ao pecador” (uma análise de um assunto relacionado nesse post – [link quebrado]).Em primeiro lugar, devemos lembrar do calcanhar de Aquiles do neo-ateísmo. Eles adoram falar em “bom” e “mal”. Mas qual é o fundamento ontológico que eles dão para justificar esses conceitos? Normalmente, eles dão por certos princípios como não-agressão, domínio do próprio corpo e etc. Mas no ateísmo, não há nenhuma pessoa como Deus; nossa moral é apenas o fruto de pressões sociais e do “bias” biológico feito pela evolução adaptativa. Não é nenhum “dever ser” em um Universo indiferente que não saia da mente de cada um.

Se a moral é subjetiva, então a  moral do sujeito que interpreta de forma errada é, objetivamente, tão válida quanto a dele. A reclamação não passa de uma expressão de preferência pessoal ou de uma convenção, assim como alguém prefere um sorvete sobre o outro ou decide virar à esquerda conforme indica a placa de trânsito. Nada mais. Terminamos com um choro ou uma frustação pessoal diante de fatos – que é simplesmente irrelevante. Toda força da objeção é perdida nesse constatação.

Não que o restante da técnica tenha mais correção. Ela depende da idéia de que se “x” pode ser exagerado, então “x” é errado.

Mas o fato simples, e de puro bom senso, é que não se imputa o erro do observador na teoria, nem o extremo como comum. Se fosse assim, TODAS as coisas da humanidade poderiam ser classificadas como más. Seguindo o raciocínio neo-ateu:

  • (a) O amor que uma mãe deve dar a um filho pode ser mal interpretado, pois uma mãe pode matar alguém por ele;
  • (b) Portanto, temos que eliminar o amor materno, que é mau;

Pense em uma mãe que é divorciada e que tem a guarda do filho. O pai ganhou o direito na Justiça de visitá-lo nos finais de semana. Mas ela ama tanto seu filho que sequer quer saber de ver o pai (a quem ela julga como uma pessoa ruim) por perto, agindo em prol desse objetivo. Seus esforços são em vão. A criança vê acaba gerando afeição pelo pai. O amor dela pelo filho é tanto que, com medo que ele vá pelo caminho do pai, ela chega simplesmente a MATAR brutalmente o sujeito.

Isso significa que deveríamos descartar o amo materno em si? Dificlmente.

Observe o absurdo em mais uma versão:

  • (a) Uma criança pode usar fogo para se aquecer;
  • (b) Mas se ela chegar perto DEMAIS do fogo, ela vai se queimar;
  • (c) Portanto, o fogo é intrinsecamente mau;

Ou ainda:

  • (a) Os livros de Tolkien podem ser mal interpretados, gerando fanatismo nos seus leitores;
  • (b) Por isso, Tolkien era mau;

O fato é que qualquer coisa pode ser má interpretada ou dar origem a versões bizarras, incluindo fanatismo ateu (no caso de Sam Harris, por exemplo – ver o texto “Sam Harris e a tolerância religiosa[link quebrado]) ou o fanatismo materialista. E a culpa da paralaxe cognitiva revolucionária não é do ateísmo, mas da mente debilitada de Sam Harris.

A crítica não funciona e, mesmo que funcionasse, seria só uma tentativa da técnica “Criticismo Bíblico valida o ateísmo”. Alguém pode ser cristão e ter dúvidas sobre trechos da Bíblia. Não há incompatibilidade nessas duas idéias. Só o contrário é verdadeiro: se você tem dúvidas sobre a existência de Deus [“condição p”], então dificilmente poderá acreditar que a Bíblia é inerrante [“condição p1”]. “P1” depende de “P”; mas “P” não depende de “P1”.

Enfim, para derrubá-lo, trate de lembrar de que ele precisa justificar dois pontos:

  • (a) Existem conceitos absolutos de bem e mal;
  • (b) Se existe uma versão extrema de algo gerada por uma  nterpretação ruim, logo a versão moderada (e correta) é intrinsecamente má;

Depois de deixar isso claro, possivelmente ele só vai enrolar. Aí é só mandar pastar. Dessa forma, evitamos que ele atrapalhe e jogue mais cortinas de fumaça na discussão.

Anúncios