Técnica: Não preciso de Deus para ser bom, sou melhor do que você

Nessa técnica, o neo-ateu vai se vangloriar de ser um tipo moral superior, estando em oposição ao cristão. Explico: nessa fantasia, o cristão não comete imoralidades (como assassinato) por medo de Deus; enquanto o grupo dele (ateu ou neo-ateu) não comete uma imoralidade simplesmente por ela ser imoral. Em forma de argumento, essa idéia iria assim:

  • (1) Um teísta não mata e não estupra porque tem medo da punição de Deus;
  • (2) Já o ateu não mata e não estupra por discerne que isso é errado;
  • (3) Quem age por medo de uma punição é pior do que quem age por reconhecer que é errado;
  • (4) Logo, o ateu é melhor do que o teísta;

Neo-ateus podem citar a frase de Albert Einstein nessas horas:

Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível.

A abobrinha pode ser refutada com FACILIDADE (como quase todo truque neo-ateu).

O padrão da refutação é simples: basta fazer uma investigação moral. Eu já fiz isso nos seguintes posts, que devem ser lidos para uma maior compreensão: Um pouco sobre teoria moral objetiva e subjetiva [Link quebrado] e Erros de neo-ateus sobre teoria moral (Argumento Moral) [Link quebrado].

Vamos nos basear na idéia apresentada, que basicamente diz que:

  • (a) Certas coisas SÃO imorais (como assassinato);
  • (b) A hipocrisia no agir (ser bom por medo) também é menos moral ou é pior do que o agir pelo bem em si mesmo;

Então, nesse caso, é só perguntar: qual a referência ontológica para fundamentação moral usada pelo neo-ateu? Dizer que “O ato de assassinar É imoral” é uma declaração sobre um FATO. E fatos são, por sua própria definição, objetivos.

Mas se o naturalismo/ateísmo é correto, então a moral, por consequência lógica, se baseia na projeção dos nossos sentimentos. Não há um padrão último na realidade, um “Legislador” para Lei Moral fora da consciência humana individual, para definir o que é um ato moral ou não. A moral é, logo, subjetiva.

No ateísmo, nosso sentimento moral provavelmente é derivada de uma figura como a seguinte: a evolução nos fez querer a sobrevivência (porque, obviamente, ela seleciona os que melhor sobrevivem e os que não queriam sobreviver ficaram pelo caminho). Para sobrevivermos melhor, acabamos tendo propriedades neuroquímicas no cérebro que nos fizeram ter aversão sentimental ao assassinato e ao assassino. E a partir daí os seres humanos consideraram matar imoral.

Mas isso mostra de alguma forma que matar É realmente imoral?

Não. O fato bruto da realidade é que o ato não É imoral; o ato em si de planejar genocídios não é nada diferente de planejar ajudar os pobres famintos. A preferência pelo amor e pela cooperação ao invés do ódio e do homicídio seriam só os sentimentos do momento, que podem variar de acordo com o lugar e o tempo.

Tendo esses sentimentos, nós construimos algumas ilusões sobre a realidade, projetando nela nossas preferências sentimentais definidas sociobiologicamente. E esse sentimento de não vale absolutamente nada fora da sua própria ilusão. Se alguém tiver uma ilusão diferente (onde o assassinato é bom, como marxistas achavam para acabar com a burguesia ou os racistas para acabar com os negros), é tão correta quanto a do neo-ateu. São somente seus impulsos irracionais subjetivos.

Assim, a idéia de que matar É imoral perde seu valor; cada um define se ACHA imoral ou não. O fato é que dizer que é imoral ou não são só opiniões conflitantes de sujeitos – a realidade dos fatos é que eles são instrisincamente amorais. O neo-ateu, portanto, não pode “discernir” que isso é errado; ele simplesmente tem um sentimento que é, a partir de um impulso irracional no cérebro (para ler mais sobre o assunto, veja meus posts anteriores).

Ora, se um assassino achar que o assassinato é moral, então sua moral é tão correta quanto a dele. Não há diferenças na realidade. E se eu for religioso e achar que a moralidade é seguir a Deus por medo, minha moral é tão correta quanto a dele. Não há diferenças na realidade.

Assim, o argumento vai direto para a lata de lixo. O neo-ateu só está declarando uma PREFERÊNCIA sua, que não tem valor argumentativo. Não há como dizer “Soumoralmente melhor do que você”, pois o próprio conceito de moralmente melhor se esvazia para um relativismo entre o que cada um vai achar. É só cuidar a assunção implícita de uma premissa da existência do valor moral no discurso neo-ateu, confrontá-lo com sua cosmovisão e pimba. Está refutado.

A segunda falácia é pensar que o religioso segue sua moral PORQUE tem medo de Deus. Bobagem. O religioso pode muito bem reconhecer a realidade dos valores morais (bem fundamentados, de acordo com sua cosmovisão) e agir conforme eles simplesmente por reconhecer isso. Eu sei que o amor é bom; então eu amo meu próximo pela bondade, não por medo do Inferno.

Não é preciso seguir a moral por ter medo de algo, dentro da visão teísta. A própria Bíblia traz um passagem poderosíssima sobre o assunto, em 1 João:

Nós conhecemos e cremos no amor que Deus tem para conosco. Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele.

Nisto é perfeito em nós o amor: que tenhamos confiança no dia do julgamento, pois, como ele é, assim também nós o somos neste mundo.

No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor.

Claro que uma passagem como essa deve ser contextualizada e desenvolvida dentro de uma análise teológica, pois não podemos julgar definitivamente com base em um simples trecho. Mas a idéia representada aí, que é o meu foco principal, é simples: não é preciso para o teísta agir no bem pelo medo de ser punido, mas por reconhecer que EXISTE um certo e errado e no mundo, o amor e o ódio, a bondade e a maldade pelo paradigma da natureza santa de Deus.

A Epistola a Timóteo também comenta o tema:

Porque Deus não nos deu o espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação.

Mais uma vez, a idéia da relação do homem com o espírito do amor – e não a covardia, que também se relaciona para a covardia quanto a Deus – é representada. Enfim, a idéia de que o cristão tradicional tem que ver Deus como um sujeito malévolo com um chicote na mão – e que por isso temos que agir bem – e não como a representação do Sumo Bem, ao qual naturalmente amamos e seguimos, só pode vir de alguém que conhece apenas uma caricatura da fé cristã.

Em resumo, refuto a frase em dois pontos:

  • (1) A alegação de “superioridade moral”, dentro da cosmovisão ateísta, não passa de um estado mental subjetivo de quem a expressa e que, portanto, não tem valor argumentativo NENHUM;
  • (2) A alegação também ignora que um teísta pode praticar uma ação apenas por reconhecer que ela é boa, pois tem adota uma teoria objetiva, sem necessariamente esperar recompensas ou punições posteriores;

Analisando o argumento original:

  • (1) Um teísta não mata e não estupra porque tem medo da punição de Deus; –> FALSO.  O teísta pode agir por considerar a realidade da moral e naturalmente segui-la;
  • (2) Já o ateu não mata e não estupra por discerne que isso é errado; –> FALSO. Ele simplesmente tem um sentimento subjetivo, de acordo com sua cosmovisão, de que é errado. Mas não é REALMENTE errado. Dizer que “é” errado é uma ilusão de sua parte. Depende do gosto do “freguês” e do que ele ACHA;
  • (3) Quem age por medo de uma punição é pior do que quem age por reconhecer que é errado; –> Pressupõe que uma certa hipocrisia é pior moralmente. Mas não há fundamentação que não seja subjetiva para o neo-ateu dessa verdade (como em (2));
  • (4) Logo, o ateu é melhor do que o teísta; –> Se as premissas são falhas, não segue a conclusão.

Feito isso, a frase é derrubada.

Conclusão

Esse é mais um truque de intimidação por parte dos neo-ateus. Fique atento e conseguirá refutá-lo apropriadamente sempre que for utilizado em uma arena de debates ou como execução de propaganda difamatória aos teístas.

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